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Caímos na ignorância por camadas e carregados de informação. O cérebro flácida aceita até entulho de obras. Finge aceitar a denúncia de quem grita, interpretando ataques de raiva como argumentos para levar o país para diante. "Ah agora é que vão saber o que é desenvolver o país", dizem após deixarem de regar o cravo na lapela. Tem quem chore de saudosismo e jure ver os pastorinhos de Fátima a falar com o ditador. São os mesmos que acreditam que eram felizes na pobreza, humilhados pelo sentimento de nada terem, apenas o dever de obediência.
Andamos com dificuldades de discernimento. Os anos na escola parecem ter sido anos perdidos. Já não sabemos que 1+1 é 2, também não imaginamos que 1+1 pode ser o que se quiser. Não imaginamos qual o maior rio de Portugal, o que para esses desconhecidos pouco importa, também não sabem que o país está por cumprir, mas se modernizou nos últimos 50 anos. Guardamos a alma de taberneiros, servimos o vinho num copo de zinco untado com borra para que não se transforme em espelho da própria alma. Ainda gritamos "Oh Zé, não bebes? Beba essa porra pá". O mesmo se aplica à sede de notícias, alguém nos diz "Aceita que é verdade, o gajo ainda vai governar isto".
Triste povo que perdeu a aura da insubmissão, converteu o pecado em projecto de vida e o berro contra os animais do vizinho que invadem a hora em declaração política para passar nos telejornais. A denúncia dos problemas é sempre bem-vinda quando trazida para o diálogo harmonioso. Romper o sistema não se faz sem ideias. Qualquer estratégia de desgaste vai ter efeitos invertidos. Mas, mais importante, os portugueses merecem respeito. Os novos políticos têm velhos hábitos, com a particularidade de se apresentarem como funcionários a reclamarem serem cobradores do fraque, com uma aura devota a imitarem o sacristão.
Perder o discernimento não é resignar face aos dogmas em leilão. Política e religião são cada vez mais como o futebol. Exigem o pagamento de quotas e a permanência para aplauso durante a homilia. A nossa capacidade de olhar as dificuldades não se pode colocar entre o desejo de aderir a uma greve geral e babar no balcão da mesma taberna por ordem de chefe supremo. Que se faça silêncio por horas, talvez se escutem os eleitores na votação para a presidência do Benfica. Quem sabe se escondem os sussurros dos amantes e a distribuição de vagas na administração pública. Pensamos estar a fazer história, mas a nossa fraqueza irá doer-nos no futuro, enquanto os eleitos se vão espraiar na opulência. A democracia também erra. Acredita que a cidadania nasce de geração espontânea e que perante esse facto é só arregaçar as mangas e construir um país. O problema é a exposição ao retrocesso. Quem não viveu o passado acha que perder todo o pudor substitui a falta de ideias e a falta de construção de margens de diálogo. Gostaria de ver saídas, resta acreditar no efeito moda. Um dia o idolatrar da idiotice será reconhecido como alienação, quebra de juízo e condição, fraqueza por influência da ocasião. Vamos aguardar por esse dia.
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