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Histórias da minha mesada

por José, em 29.10.24

Apesar de lá por casa nunca tenha abonado dinheiro agradeço aos meus avós e à minha mãe, ainda que inicialmente distante, a forma como me criaram e educaram. É certo que quando criança tive alguns problemas de saúde, o que redondou numa espécie de estigma que me favoreceu. Eu era fraco para a agricultura e para as obras, depois, felizmente, cresci saudável. Ainda assim nos meus 12 anos fui operado a uma apendicite aguda que poderia ter sido fatal. Esse ano não foi fácil, em Fevereiro, 3 dias depois do meu aniversário morreu o meu pai, e em Setembro (não lembro exatamente, mas foi antes do início das aulas), após ajudar nas obras lá em casa vou para o hospital de urgência. Essa era apenas a primeira etapa. No regresso, quando tudo parecia evoluir bem, uma das noites acordo com a "cicatriz" completamente aberta. Dela saiu pus, podridão e restos de gaze que tinha sido esquecida em mim. Enfim, não foi fácil, mas recuperei gradualmente.
Nessa juventude de que falo, apesar da vida simples da família, na época, como estudava recebia um pequeno valor de abono de família nacional e um pouco mais de França, onde a minha mãe trabalhava. Não lembro com qual ficava, mas por decisão familiar ficava com um dos abonos, tinha uma verdadeira mesada. Obviamente que não tem almoços grátis. É verdade que dava umas voltas na região à boleia, comprava alguns discos e livros e outras coisas, mas também "dava o corpo ao manifesto". Quem me conhece sabe que sempre trabalhei no campo. Tomava conta da burra, rachava lenha, tomava conta do motor de rega, arrancava batatas, fazia tudo. Poderia dar uma voltinha, mas no Verão se fosse necessário às 5 horas da manhã já estava numa das fazendas.
Esse dinheiro e um pouco que ganhava a ajudar as minhas tias permitiram "construir o meu universo". Passei depois a morar sozinho na casa que a minha mãe reconstruiu, na prática praticamente apenas morava lá e jogava por vezes às cartas com os amigos. Eram outros tempos, os nossos pensamentos eram mais puros, mas ninguém era santo. Adquiri ainda mais o gosto pelo silêncio, pelo som que vinha para além da rádio, pelas leituras e contemplação. Não eram apenas os valores, eram também conquistas. O facto de ser homem facilitou. Eu por vezes tinha o jeito de "refilão", mas com o crescimento fui ficando mais moderado. Em consequência, nunca me foi rejeitada nenhuma opção, desde que razoável. Lembro que era assinante das Selecções do Rider's Digest, agora seria leitura de taberna, mas entre outras publicações tudo ajudou no crescimento. Fui também fiel leitor do Blitz. Esse pequeno valor da mesada foi fundamental no meu crescimento. Paralelamente, o facto dos meus avós e mãe quererem o melhor para mim tudo foi um incentivo. Sem esquecer os amigos mais chegados e familiares. Em potência eu era apenas um rapaz da Beira Alta ligado ao campo, o percurso posterior deu sequência.

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