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Dada a descontinuidade dos blogs Sapo será insistir em vão escrever no blog e manter qualquer tipo de diálogo. As coisas mudaram, eu mudei, tudo mudo. Grato pela atenção de quem me acompanhou. Lamento não ter retribuído as visitas. Neste momento não estou a pensar em alternativas em termos de blogs. Partilho algumas coisas de forma restrita nas redes sociais, outras a título individual, uma ou outra através de um grupo presencial na cidade de Natal. De momento parece-me ajustado, mas nunca se sabe. Desejo tudo de bom e agradeço.
O amor que sempre me negaste
Mesmo tendo escolhido
No que tinha de muito querer
No que sempre disse na voz que não faltou
Na vida a felicidade vem do sentimento
No carinho que parece sincero
Na sorte de que se aproveitam
O delírio passa rápido na escolha
Já te quis tanto maravilhado
Agora não te quero mais
A sorte não se faz com promessas
A ausência é uma condição de respeito
Não te espero mais na noite
O coração necessita de sossego
Esquece os caminhos que percorro
Deixa-me com as alegrias de viver
José Gomes Ferreira
Chamam paraíso ao amor
Ainda o sapicam com doçura
Imaginam nele eterno fulgor
Prosperidade, paz e ternura
O tempo não é de paixões
Iludem-se com o amor descartável
O que é certo é que nas relações
Tem muita que é inviável
Pintam de cor a vida a dois
Com promessas de delírio
O pior é o que vem depois
Se se cair no conto do vigário
Chamam poema ao pronunciamento
Às palavras para encantar a inocência
Uma coisa é o que vai no pensamento
E outra é a solidão por impaciência
O amor é puro até abrir a boca
Entre a chuva e a alma
A alegria deixa a gente louca
Não adianta depois pedir calma
José Gomes Ferreira
A boca fica colorida da imaginação
Com a cintura redonda
E o coração em ritmo
No receio de confundir voz com paixão
As mãos apertam-se como abraço
A noite mostra os rostos
Escondendo o céu e as estrelas
É a inspiração que se recorda
Os sonhos andam a fazer viagens
Não dão satisfação a ninguém
As palavras são como uma canção
Podemos repetir as preocupações
É o brilho que atrai novos olhares
Sem atrito de guardar segredos
Estendem os lençóis ao luar
Julgam que vão apanhar azeitona
Sinais de que o encanto desperdiça fulgor
E o horizonte pinta-se de cores
E novos semblantes de vida
Acontecimentos oferecidos pela natureza
Pensando em carícias e calor
Para que não se desperdice o pensamento
E a sensibilidade escute também as imagens
José Gomes Ferreira
* Não as vi, mas foram avistadas aqui perto.
A chuva bate forte nos telhados
Escuta-se até nas frestas das janelas
Regala a erva verde dos quintais
As próprias laranjas ganham cor
A água é gelada com promessas de neve
O Sol não espreita no céu cinzento
O vento chama em breves rajadas
Tudo parece martírio entre as estações
A lenha arde no fogão e mal aquece
São as letras que ressoam no computador
A ligação à Internet sofre interrupções
A imaginação também surta com o cenário
O chá quente tinge a esperança
O hábito não circula entre os ausentes
E a motivação rebola entre a vontade
Sou capaz de acrescentar memórias ao já vivido
Nunca serei capaz de embalar na escolha o corpo frio
José Gomes Ferreira
Somente sei juntar palavras
Umas na oralidade da causa e do ensinamento
Como quem costura no lapso da verdade
E distribui narrativas com as quais se encanta
Outras na materialidade da escrita
Como rendilhar de socalcos na encosta íngreme
Deixando depois caminho aberto para quem vem a seguir
Gosto particularmente quando me falam na dignidade da actividade
E os meus olhos também comunicam
E elaboram frases mostradas no luxo do encanto
No relato da metamorfose e das metas
Como raio de Sol que atravessa o cosmos e brilha para lá da Serra
Gosto de bordar para um auditório minúsculo
Sem palco para saltar à corda
E sem a publicidade que vende nos intervalos
Gosto de transformar as interpretações da vida
De picotar o papel com a ponta da caneta
Embora agora as letras sejam mescladas de ecrã e vício
Misturando as teclas com imagens de mudança
José Gomes Ferreira
Fico parado em repouso
O Inverno esconde as paixões
Precisa mais do que um saco cama
Até o silêncio é cortante
Sopra como o vento no planalto
As giestas no mato é que gostam de frio e chuva
Eu preciso de luz e ternura no caminho
Contam-me algumas histórias
Segredam as divergências políticas
E algumas das utopias familiares
Escuto com a gentileza de sempre
Ainda assim apenas rimo na hora do café
Tem dias em que as mesas estão cheias
E algumas almas lembram-se da felicidade
Deixo-me estar empoeirado da cinza
O fogão a lenha traça um rasto de fumo no horizonte
Nem o vejo na sua definição
Fico parado e contemplo
Escuto os anos que passaram
A minha saudade é sempre pela distância
Tudo mais é memória e alguns fragmentos de reconhecimento
Dou razão aos ciclos que se completam
Aceito tudo o que consegui nada luta
José Gomes Ferreira
Falta-me a voz
Não me falta a comunhão
Ainda falta chegar à foz
Dá um aperto no coração
Tenho muito para contar
Nos caminhos que percorri
Continuo disponível para amar
Porventura nunca te vi
A vida merece partilha
As noites revelam paixão
Toda a sedução brilha
Os amantes escolhem a atenção
Nem tudo é natureza
Nem pura racionalidade
Se existe alguma certeza
É a do respeito e dignidade
José Gomes Ferreira
Fujo do feitio insatisfeito
Não daqueles que rejeitam o conformismo
Mas quem mostra sempre rejeição
Como se a vida fosse madrasta e sogra ao mesmo tempo
Uma coisa é o silêncio da observação e reflexão
Outra coisa é o disfarce de não querer nada com o mundo
Lido mal com pessoas revoltadas
E que na base consideram ter sempre razão
Quem sorrir para mim sem bloqueios tem o meu abraço
Já quem tem o rei na barriga não terá nada
Depois tem quem se cale na multidão
E no contexto privado goste da soberba
Não vejo a felicidade como manifesto de bagagem
É resultado do caminho sereno e das companhias
Se corro é porque acredito fazer a diferença
Não para destacar os traços em competição
A minha galinha não é melhor que a de ninguém
Em boa verdade não tenho nenhuma galinha
O que importa é aceitar os outros de coração
José Gomes Ferreira
Não vamos olhar mais para trás, não adianta
É nas indefinições e cruzamentos que ganhamos força
É no futuro que as escolhas mostram os encontros e desencontros
A base justa da persistência e da vontade
Lá para diante haverá o abraço hipotético do tempo e da espera
O enlace da imaginação com o sonho maduro
Haverá o retorno das manhãs de fantasia
Aquelas em que o Sol brilha sem cessar e o mundo rejeita as guerras
A própria melancolia é um sorriso rasgado
Teremos tempo de viver e experimentar os navios
São muitas as travessias a realizar nas carícias do rosto e do peito
Já não interessa apenas mostrar qualquer relação
Podemos apenas adormecer no aquecer do ventre
Não precisamos fingir os caminhos
E voltar a repetir os abraços de despedida
Vamos evitar as lágrimas do adeus
A tranquilidade não é quando o coração ama
É quando o silêncio redefine o destino
José Gomes Ferreira
O tempo é longo quando não se registam mudanças
A população envelhece também na partida
Os campos jazem abandonados
A mata ardeu em efeito estival
Secou as nascentes e devorou a lenha
Até as fontes estão com acesso proibido
A própria missa é de efeito intercalado
Fazem falta as mulheres na ajuda à oração
Às 13h persiste o encontro para café
Numa das mesas da Associação jogam às cartas
É a rotina que mais se destaca entre os presentes
Tem dias em que se zangam
Mas repetem a presença no dia seguinte
Abstenho-me de participar, observo a nostalgia do rebate
Por minutos a aldeia recupera o folgo
Ainda se escutam as horas no relógio da Igreja
É a disputa das cartas na mesa que define o instante
Repetem-se também os cumprimentos e saudações
O mundo pára para destacar esse pequeno palco
A vida segue o ritmo que a nostalgia não derreteu
José Gomes Ferreira
O silêncio esconde o consolo
E captura o conforto do coração
Não tem vontade extrema
A cidade e a distância são movimento
Tantas ilusões na rapidez da vida
Que o menosprezo é pela natureza
E no cativar dos elementos
Até os beijos são escondidos à chuva
Expostos na multidão
Mas dados para libertar as mãos
A alma fica seca de paixão
A ambição é a loucura de quem luta
Não a que leva à exposição de bens
Andam por aí muitos carros novos
E viagens para colocar nas redes sociais
A existência não se fica por esse delírio
Tem luta por princípios e vocações
Coisas que a guerra esconde
E a corrente que nos envolve nem sempre revela
Não fico a chorar por não ter pulso
Não terei um relógio dourado a dar horas
Só o pensamento me compreende
Buscarem mostrar os meus olhos
São eles que mostram a luz que levo adiante
José Gomes Ferreira
Da Serra não vem apenas o vento
E o Sol que madruga escondido
Vem também a contemplação
E a história de guerreiros e pastores
Viriato é o herói que enfrentou os romanos
Ainda Cristo não tinha sido inventado
Liderou os Lusitanos
Haverá mito e realidade na localização
Referida aos Montes Hermínios, a actual Serra da Estrela
O guerreiro-pastor traído pelos seus
Morto que foi por supostos amigos
Justamente aquele que foi elogiado entre os justos
Os povos necessitam de símbolos
O queijado na mão guarda as ovelhas
Mas se usado em combate ganha rosto e memória
Derrotou em sequência exércitos de invasores
Ganhou trovas e estátuas, avançou na imaginação
O próprio nome da Serra pode vir daí
Mesmo que outras lendas completem a fantasia
Talvez venha do brilho da Sirius posicionada sobre o maciço central
José Gomes Ferreira
Antes do chamado dia de reflexão que antecede a votação para a eleição do futuro, hoje celebra-se o Dia da Insatisfação. Vão dizer maravilhas quanto à forma cordial do ambiente de campanha eleitoral, mas é tudo para inglês ver. A cordialidade da campanha foi tanta que os candidatos não debateram temas relacionados ao cargo. Concordam comigo que parece ter ocorrido uma campanha para o lugar de primeiro-ministro ou, quem sabe, para a presidência da Assembleia da República, mas sobre o que importa zero. O facto resultou (ou é resultado) em grande número de candidatos, mas sem qualquer proposta clara. A estratégia de Ventura é a vencedora. Outros a seguiram, mas o focar em temas do governo e não da Presidência da República favorece a agenda de André Ventura.
Estamos quase nas vésperas da abertura das mesas de voto e a única certeza é que não votarei em André Ventura, no almirante, em Catarina Martins, no Pestana e mais uns quantos. A outra certeza é de votar. Poderia votar em branco, será favorecer os candidatos que rejeito. A falta de qualidade dos candidatos é impressionante. Marques Mendes escancarou o seu lado de facilitador e rei das negociatas. Seguro pode ser boa gente e ter uma estratégia, mas é muito sem sal. Cotrim entrou com imagem pura e casta, o problema dele bem são as acusações pendentes, é a linha de actuação. O tal do algodão não engana. Ventura só engana os especialistas do Facebook ou das minis pela madrugada. Amanhã saberemos que primeiro volta teremos.
Não sei para onde vai o mundo
E se ainda temos grandes pensadores
Dá ideia que tem muito vagabundo
Com vícios de grandes ditadores
Não se trata de política na escolha
Nem de definir posição
Pior é quem se coloca numa bolha
Apenas para induzir uma só interpretação
O pior são as pessoas que regridem
Esquecem facilmente o passado
Não sei se é para fingirem
O sucesso não é literalmente dado
A demagogia é pior que pimentão
Apanhando o gosto tem quem acredite
Pensa ser mordomo na procissão
Só que copia apenas o que alguém dite
José Gomes Ferreira
Não sei para onde vai o mundo
E se ainda temos grandes pensadores
Dá ideia que tem muito vagabundo
Com vícios de grandes ditadores
Não se trata de política na escolha
Nem de definir posição
Pior é quem se coloca numa bolha
Apenas para induzir uma só interpretação
O pior são as pessoas que regridem
Esquecem facilmente o passado
Não sei se é para fingirem
O sucesso não é literalmente dado
A demagogia é pior que pimentão
Apanhando o gosto tem quem acredite
Pensa ser mordomo na procissão
Só que copia apenas o que alguém dite
José Gomes Ferreira
Tira-me uma fotografia
Não me tires o sonho
Não me tires a alegria
Tira-me o retrato se me disponho
Assim fica pelo menos uma recordação
Da cadência sem objectivar
Sem comprometer o coração
E sem promessas de te amar
Insano é o esquecimento
E a chuva que cai no molhado
Esconder as dificuldades do pensamento
Criticar e acabar encalhado
Tira-me os retratos e as medidas
Não vá ficar alterado
As expectativas foram atendidas
Ninguém sugeriu cantar o fado
José Gomes Ferreira
Foi demorado a colocar nos trilhos
É um engano quando o país promete rapidez nas obras
O orçamento também desliza sem aviso
Regressou o comboio à Linha da Beira Alta
Escuta-se pela própria manifestação do vento
Outrora marcava a partida dos emigrantes e militares
Era dono também da cadência do dia
O rápido trazia no início da tarde a sardinha da Figueira da Foz
Mais tarde o Intercidades alertava para o aproximar do almoço
No Verão e Inverno sempre funcionou como segundo relógio do povo
Pois nem todos conseguiam escutar o relógio da torre da Igreja
Agora traz outros alertas e passageiros
Está sem gente o interior
Talvez o Verão encha a Serra de caminhantes
O comboio é tanto viagem em silêncio
Quanto grito por clemência da civilização
José Gomes Ferreira
Os lábios gretam e a pele escama
O vento manhoso nunca deu tréguas
Uiva entre as serras e o rio
Passa o Vale do Boi, evita o Maninho
Toma a jeito a aldeia fixa no planalto
Os olhos regalam, ainda sorriem no cumprimento
Nos ribeiros a água corre na loucura
Raspa nas pedras e nos arbustos
Qualquer correnteza deixa os lameiros inundados
Algumas salamandras cruzam a calçada molhada
Arrepia o corpo malhado de amarelo
Outros répteis não parecem gerar tanta repulsa
Nem os cães perdigueiros lhe pegam
Na rua ainda imagino algumas idosas de xaile pelas costas
E na cabeça um lenço igualmente preto a tapar a idade do rosto
Digo bom dia, mesmo sabendo que os idosos estão agora no Centro de Dia
Escuto um carro e fico na dúvida
Pela manhã poderá ser o padeiro, mais tarde o carteiro
Talvez seja dia da venda ambulante de carne
Ainda não é Domingo para ser o vendedor de maçãs
Tem tanto de semelhante entre os meus universos
Talvez a maior diferença seja a temperatura do ar
E o perfume da nostalgia dos dias na esperança
Assim como o colorido da fruta nos aromas
José Gomes Ferreira
Que raio de notícia, o Sapo Blogs vai ser descontinuado no dia 30 de Junho. Não que a minha actual participação seja de grande monta, mas são mais de 20 anos de escrita e divulgação de informação. No caso do blog da minha aldeia, depois de uma fase como blog passei a dinâmica para uma página do Facebook, tempos depois organizei um livro colaborativo que publiquei em 2013. Outras participações foram sobretudo de divulgação de curiosidades e património. Os blogs de poesia são igualmente da mesma data, lembro que em 2025 teve uma reformulação, nessa data já participava. Existem outras alternativas, existem sempre. Mas os Blogs Sapo fazem parte da história e património, ver tudo acabar deixa-nos mais pobres. Tristeza não é o termo correcto, a lógica comercial já não deixa ninguém triste, andamos muito conformados. Os blogs inicialmente reflectiam um inconformismo colectivo, ao mesmo tempo inovador e cativante. Eram também espaços de entreajuda. As redes sociais mataram as palavras e os parte dos leitores. Resta-nos escrever até Junho ou pensar de imediato em arrumar as malas para outras plataformas.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.