Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
A água das fontes está imprópria para consumo
Quanta negligência na terra dos suspiros
Talvez seja poluição verdadeira
Quem sabe é para esconder a falta de monitorização
Está difícil de saber, não será por amor
É certamente impreparo que nos deixa infelizes
Para cúmulo a rede pública tem falhas e cortes por estar obsoleta
Atiram nas torneiras um misto de água-lodo
É do conserto, mas dá-me cabo do coração
O clima anda a mudar, as fontes constroem resiliência
O abandono retira encanto às vivências da água
Água é vida, líquido que liga e religa cultura e gente
As fontes sempre foram locais de encontro
De muitos dedos de conversa e até de namoros
Uma fonte inactiva é uma memória morta
O paladar que se perde na ignorância
Já ninguém mata por lá a sapeira
Morre com as barricadas das operações económicas
E da ilusão da eficiência com exigências
José Gomes Ferreira

A espera longa atrapalha
A luz solar de Norte a Sul
Os sonhos longe do caminho
Os amores que nunca amei
O coração inquieto que não escuto
Os percursos de cabo a rabo
O olhar que fica e vai
A chuva sem querer
Como poderei seguir se a saudade me prende
E o espaço preenche os aromas e os tesouros
Tantas lembranças e acontecimentos
Episódios contados com destaque
Parecem construir a história do país
E revelar o perfil de gerações inteiras
Observei quem andou na resina e os contrários
Usei canivete sem o reconhecer como arma
E elevar a auto-estima todo ano
Esculpia madeira em feições hipotéticas
Descasquei a fruta da estação
O programa não mudava no botão
Era preciso cultivar a terra e seguir para o que sou
José Gomes Ferreira
É tempo de recolha de indicações
Andamos perdidos na banalização
Saltam à nossa frente utopias de excelência
Escuto conversas cruzadas
Um grupo exalta o papel das mulheres na gestão financeira
Não o faz sem laivos machistas
Outro grupo fala sobre o casamento da filha do senhor Fortuna
Parece que tinha jeito para a costura
E gostava de um ausente chamado Luís
Vivemos vidas cruzadas somente com encontros hipotéticos
Os laços são mais fortes em comunidades tradicionais
Mas já dizia Simmel que a metrópole confere autonomia
Uma autonomia que pode arrastar para a solidão
Difícil é encontrar alguém sem dialogar sobre a vida dos outros
Faz-nos falta o bom dia e o abraço
Toda a liberdade tem preço
A alucinação é a espera do passar dos dias
A doença é quando a vida alheia preenche as narrativas
José Gomes Ferreira
A fogueira de Natal mostra algumas brasas
As noites trazem o frio do Norte dos Hemisférios
Falam bem das pessoas, dos laços e da fé
O que não significa cair em enganos
Existem muitas disputas escondidas em sorrisos
A Serra da Estrela aparece coberta de neve
O rio Mondego esconde as entranhas
A névoa estende um manto de cristais sobre o leito
A saudade é por agora merecida
E são restabelecidas as coordenadas
Haverá sempre partidas e regressos
A paz é mais feliz onde se construíram as primeiras memórias
Os caminhos estão abertos à presença humana
Percorremos alguns quilómetros em vitória
O grupo segue com convicção
Sei que é tudo passageiro e gera ansiedade
O controle existe havendo encanto
Qualquer lembrança é um baile de corpo e pensamento
Factos que nos ligam a metas e realizações
José Gomes Ferreira
Seja como o que diz
Na dança do universo
Seja uma estrela
Uma meta a alcançar
Seja inspiração
Coerente no sangue
E na genética da liberdade
Seja guerreiro e líder
Não necessita parecer
Nunca perca a humildade
Seja o tempo que precisa
E as escolhas que o destino gera
Seja delicadeza e compasso
Forte para enfrentar as privações
Determinado nas escolhas
Sensato e humano no sentimento
Seja uma luz ao vento
O farol da esperança
Seja o silêncio que nada esconde
José Gomes Ferreira
Os anos passam e não me dou conta
Vence ainda a ergonomia da juventude
Mesmo que os sinais possam trazer indicações
Tem também quem se apresse a passar-me receitas
Alguns amigos chegam ao exagero
É verdade que nem sempre aguento ficar na procissão
Já não posso com os andores da vida
Tem outros momentos que prefiro o silêncio
Não da devoção dogmática de um seminário
Mas da catarse de luz e da imaginação
Dos instantes em que não deixamos chegar perto
E seguimos o livre pensamento como quem segue um mestre
Cumpro as etapas do corpo e essas não as posso enganar
Nem na imitação poderei inverter o percurso
Resta-me preparar e aceitar sem dramatismo
Se correr será o suor que se pega
Ao andar devagar é a luta que esmorece
O equilíbrio recupera a ordem das coisas
E para o alcançar preciso escolher o foco
Apartar-me de utopias e litígios
Venerar a amizade e a natureza
Multiplicar a memória e as conquistas
José Gomes Ferreira
O que tenho a dizer sobre outros tempos
É mera nostalgia dos Natais passados à lareira
Em serões capazes de multiplicar laços
Esses mesmo que residem na suprema necessidade
Talvez aí conheça a minha ambição por bens materiais
Toda a criança esperava por roupa nova e chocolates
Na época transcendiam o másculo gosto pelo consumo
Depois eram também as notícias
Fiquei órfão muito cedo e com mãe emigrante
Numa manhã de Fevereiro acordei sem pai e com a minha mãe em França
Devo tudo aos meus avós maternos
Foram os meus pais adultos na compreensão
A minha mãe distante nunca se esquecia de nós
Só ela sabe a luta dos dias solitários com os filhos na aldeia
E de como eram as preces de renovação
A noite de Natal juntava as minhas tias-avós
Durante o ano deixavam escapar divergências
Naquela trecho da noite esqueciam as amplitudes
Era a minha avó que impunha outra vontade
Exercia em plenitude a imposição de contenção
E assim a noite tinha histórias e personagens
E a crença em como se celebrava a própria luz da vida
Vivi o pleno da memória sem motivos para chorar
Não peço para voltar atrás, sei guardar a poesia da saudade
José Gomes Ferreira
Não que fosse positivo, separava as famílias influentes das pobres, mas na minha infância o destaque de determinada pessoa era visto a partir da pergunta básica: és filho de quem? Quem é o teu pai? Agora qualquer distinção é feita pelas preferências clubísticas e pela adesão partidária. A política anda a apartar as pessoas entre quem defende algum humanismo e quem diz mal de determinado grupo social para dar nas vistas. Tem muitos sociólogos de bancada: olham, não colocam questões de partida, não analisam, não fazem revisão da literatura, não interpretam os dados, mas logo tiram as suas convictas conclusões, geralmente eivadas de ideologia e de uma dose cavalar de senso comum. Ou seja, a conversa de café anda a estabelecer rupturas e a querer instituir-se como paradigma. E não é do café de tradição, mas da figura tabernal das mini e tremoços. Andamos a regredir na forma de pensar o país. Todos criticam o não desenvolvimento, mas nenhum sai da cepa torta. Desdenhar é muito fácil, mas apresentar propostas concretas é raro. O pior de tudo é que virou moda desdenhar. Da direita à esquerda a política perdeu a dignidade. Importa polarizar e falar mal de minorias ou imigrantes. Problemas como o acesso à saúde, colocação de professores, apoio aos idosos e muitos outros são marginalizados. É tudo um jogo de interesses. Criticam mas retiram benefício. Até parece que não existem compadres e comadres e o jeitinho português que se atribui aos brasileiros. Estamos a falhar e não é apenas no PIB. Falhamos do que defendemos como elementos intrínsecos à identidade nacional. Batemos o pé na defesa da honra, mas sem empatia e sentido de pertença. O sangue do coração pode passar para as mãos. Nunca pensei que a inveja se destacava na nossa identidade. As novas gerações precisam de lutar mais para não confundirem orgulho pelas vitórias com perseguição aos mais fracos. Estamos mais preocupados com a hierarquia de classe que com a nossa própria luta. Não sei que rumo seguimos, mas não é o melhor caminho. A tudo isso acresce a forma selectiva como os órgãos públicos actuam. Os Espíritos Santos e os Castelos Brancos da vida vivem como decentes, qualquer pobre é criminoso por roubar laranjas.
Invertemos as posições para impor um padrão
Queremos celebrar o Natal como o que resta de junção na Humanidade
Só que é tudo tão volátil no forçar de afectos
Insistimos na dignidade pelos actos de consumo
E na definição de família por suposta adesão
O Natal tem tanto de coercivo quanto tem de felicidade
Transformou-se em símbolo da globalização
Num ignorar da vulnerabilidade do planeta
E no sacrifício de quem se esconde na solidão
Para alguns o Natal é uma bomba de exclusão prestes a rebentar
A sua saúde mental não se equilibra na caridade de ocasião de jantares de beneficência
O Natal é para muitos o desejo de que tudo passe rápido
A reminiscência de tradições e memórias ofuscadas
O sobressalto trazido na deslealdade aos rituais e princípios de comunhão
Não se deve colocar como conduta moral e ritual social
José Gomes Ferreira
Isto não é um poema
É uma reclamação
Ou então é uma reclamação poética
Agora inventaram de trocar o atendimento humano por inteligência artificial
É a melhor maneira de se desistir
O problema é quando se precisa de resolver determinado problema
O primeiro passo é folhear o catálogo
Talvez o nosso problema esteja no catálogo
O problema é quando não se enquadra
Nos melhores casos pergunta: quer ser atendido por um operador humano
Da minha parte agradeço com vontade de dizer: só agora é que perguntas
Também uso esta ferramenta nos meus afazeres
Mas custa-me aceitar tanta magia em algo que gera desemprego e não resolve os problemas colocados
Acusem-me de resistente à mudança
É uma resistência tácita, não por inaptidão
No supermercado não uso as caixas automáticas
Em todo lado evito o que não é atendimento humano
Se ficarem as máquinas os próprios orgasmos nem fingidos são
São um mero impulso digital capaz de descrever as sensações
José Gomes Ferreira
Posso parecer desatento e a não dizer coisa com coisa
Tanto é que esqueço o destino
E descontextualizo qualquer encontro não previsto
Não é grave nenhuma das situações
Mas sinaliza o cansaço da entrega
Mostra que quem manda em mim é a diabetes
Na companhia da soma movediça da história
Ainda consigo discernir o certo e o errado
Assim como o leve do intenso
Só que não sou de ferro
Necessito dosear o esforço
No início deste ano passei a casa dos 60
Tenho tantos sonhos quanto o amor imaterial
E a felicidade latente na observação da própria condição
Tenho tantos anos quanta a saudade pela aproximação ao universo
Ainda vejo a verdade sem pedir para ser abençoado
Os caminhos que pisei têm agora a minha marca
Simbolizam também o sentir do coração
José Gomes Ferreira
O tempo encurta a vida e aumenta a memória
Passamos a olhar mais para trás do que para a frente
O desejo deixa de ser uma vontade carnal
Transforma-se na apoteose da memória
Na crença de que a paz é a melhor conquista
E as recordações são repositórios de narrativas
Onde o próprio coração se entrega sem resistir
Tem quem se convença que o amor é sinónimo de cuidado
Ainda não me entreguei a essa interpretação
Tenho ainda a imaginação a ditar-me os passos
A própria felicidade não se realiza apenas no tempo passado
As portas continuam abertas
As rotinas não são para escapar ao paradigma
São para resistir às leituras dogmáticas
E ao pressuposto da entrega dos anos à solidão
O tempo é a condição da dignidade
José Gomes Ferreira
Evapora-se o molho de vides colocado para acender a lareira
As mãos tremem de arrepio
Mal seguram a candeia
E o cabelo desprendido pelo vento
Atiço a lenha nas panelas
Sento-me à mesa a recordar
Espreito no janelo da cozinha
As ruas estão vazias e silenciosas
Não se vê vivalma
Até os cães engolem o latido
Esporadicamente escuta-se um carro ou moto
O relógio da Igreja também marca as horas
São as chaminés que denunciam a presença de gente
O céu azul oxidante marca as cores
No solo a camada de geada é desfeita pelo brilho do Sol
O Inverno chega imponente na aldeia
Talvez por isso a padroeira seja a Senhora da Tosse
Aqueço água e preparo a receita da estação
Não importa a idade, uma colher de mel e um copo de água com aguardente são remédio caseiro
José Gomes Ferreira
Já vivi muitas vidas
Agora nesta me achei
Sem nunca deixar outras perdidas
Sempre que teve amor me amei
Também eu envelheço
Faço-o de jeito e consciência
Sou mais do que pareço
Com pudor e paciência
Até o corpo se transforma
Nessa rota de maturidade
As ideias ganham forma
E o sonho transforma-se em realidade
Parti apenas das serras e planalto
Não tinha nada para o futuro
Tão jovem era muito alto
Subia as encostas e o muro
Foquei na memória e nas metas
Dei força à imaginação
Segui a indicação de sinais e setas
Segui caminho por paixão
Dizem que é obra do destino
Acrescentam divindades
Acontece que já não sou menino
Construi da história outras verdades
José Gomes Ferreira
Não te deixes enganar
Ó Zé pela ocasião
Tem quem prometa te amar
Que quer roubar o teu coração
Ó Zé olha o futuro
Não te metas em apertos
Não permitas que saltem o muro
O mundo é para os espertos
Ó Zé meu bom rapaz
Deixa que a paz te conquiste
Tu és certamente capaz
Não aceites quem te despiste
Ó Zé não te alteres
Que o mundo anda às avessas
Tem por aí muito alferes
A querer ser general às pressas
José Gomes Ferreira
O meu plano é sossegar
Ser feliz só de imaginar
Respeitar a natureza nas coisas
Saber como é me amar
O meu plano é tão curtinho
E também cheio de viver
Não preciso de competir
Apenas de acordar cada manhã
O meu plano é ter voz
Nunca abdicar de dizer
Mesmo que o silêncio se faça
E venha tudo da imaginação
O meu plano é de verdade
Tem um jeito de acontecer
Mesmo que não tenha reparado
E assim tenha por onde escolher
José Gomes Ferreira
Outro dia atravessava Lisboa debaixo de chuva
Caminhava com a água a galalgar os lancis
No Cais das Colunas era o Tejo ondulante
Soltava a pressão pela escadaria
Também eu parei no semáforo
Limpei o rosto húmido e as lentes
Não me apercebi se tinha gente à minha frente
Observei apenas os elementos naturais
Escutei moribundos em várias línguas
E empregados a esconderem os cafés
Passaram 10 anos, mas parecia outro dia
Escutava ainda as buzinas ao desafio
A água a infiltrou-se nas perfurações cutâneas
Mentiram quando disseram que Lisboa cheira bem
A maresia não consegue ocultar o fedor das gavetas
Guardam projectos bafientos com promessas de justiça
Outro dia abraçava a Avenida e o Parque
Chegaram a ter livros no Parque
Alguns ocultavam as prostitutas
Ainda não havia telemóveis quando cheguei
Limitei-me a cobrir os ângulos como quem vive a curiosidade
Atravessava Lisboa como quem atravessa o destino
José Gomes Ferreira
Olho para o céu e vejo bravura
O esplendor da natureza e o meu próprio lugar
Olho para o céu e está coberto de almas
De toda a luz de quem me abriu caminho
Corro mais com a imaginação que com os passos
Avanço mais com a memória que com o sonho
Não me condeno por si, tudo o que desejo está para a frente
A vontade e o motivo com que luto vem de trás
Isso não significa que resigno, que resignei
Apenas que encontro equilíbrio entre o que desejo e o que vivi
Seduz-me a ambição por um mundo melhor
Tal como o amor e a consciência material
Ainda assim completo-me ao convocar os antepassados e os presentes
A agradecer o pão e a fonte de vida
Não tenho motivo maior de queixa ao chegar aqui
Devo agradecer o quanto se uninaram as preces e o destino
Se desferi lágrimas foram a minha força
Se descansei foi porque mereci
José Gomes Ferreira
Dizes amor, que é o silêncio
Que não me decido
E as pressas da vida são muitas
No próprio sopro que é a existência
Pedes amor, que assuma a parceria
Não a força e a garra
Mas que ocupe o palco ao teu lado
Que me mostra para te narrarem
Acreditas amor, que os gestos são importantes
Mesmo que não representem aquilo que valem
E o sentimento se iluda na aparência
E se fortaleça fora da reserva íntima
Lamentas amor, que eu tenha dúvidas
Não me perguntas, mas interpretas como dúvida
Quando eu apenas gosto da força singela da paixão
E do amor que nem a distância apaga
José Gomes Ferreira
Não se iludam com a minha repetição de tradições
O Natal é uma construção mirabolante
Tem cada vez menos reforço das solidariedades primárias
Com laços e reencontros descritos como costumes
Era também a felicidade em valorizar gestos
O par de meias que se retirava da pranheira
O chocolate guardado para a ocasião
Como também a roupa nova surpresa
Agora tudo isso são horizontes quotidianos
Espera-se algo exuberante, a nossa presença nada representa
A fé é apenas um adereço repetido nos votos
A festa é uma imagética de prendas e viagens
Uma idealização das televisões para se gastar
Os Reis Magos são os botões que activam a publicidade
Jesus, Maria e José são agora a figuras surpresas
Interrompem o sucesso do Pai Natal e das ofertas
A manjedoura é uma qualquer mesa de repasto para quem pode
Só são aceites animais que quebrem a solidão e admiram causas
O Natal é um desejo nocturno de que tudo passe após a ceia
O Natal é uma idealização de família ungida na Criação
As famílias agora debatem-se com o dilema da sobrevivência
José Gomes Ferreira
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.