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Líquido que nos liga

por José, em 31.12.25

A água das fontes está imprópria para consumo
Quanta negligência na terra dos suspiros
Talvez seja poluição verdadeira
Quem sabe é para esconder a falta de monitorização
Está difícil de saber, não será por amor
É certamente impreparo que nos deixa infelizes
Para cúmulo a rede pública tem falhas e cortes por estar obsoleta
Atiram nas torneiras um misto de água-lodo
É do conserto, mas dá-me cabo do coração
O clima anda a mudar, as fontes constroem resiliência
O abandono retira encanto às vivências da água
Água é vida, líquido que liga e religa cultura e gente
As fontes sempre foram locais de encontro
De muitos dedos de conversa e até de namoros
Uma fonte inactiva é uma memória morta
O paladar que se perde na ignorância
Já ninguém mata por lá a sapeira
Morre com as barricadas das operações económicas
E da ilusão da eficiência com exigências

José Gomes Ferreira

20251226_112955.jpg

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publicado às 01:29

Ficar por aqui

por José, em 30.12.25

A espera longa atrapalha
A luz solar de Norte a Sul
Os sonhos longe do caminho
Os amores que nunca amei
O coração inquieto que não escuto
Os percursos de cabo a rabo
O olhar que fica e vai
A chuva sem querer
Como poderei seguir se a saudade me prende
E o espaço preenche os aromas e os tesouros
Tantas lembranças e acontecimentos
Episódios contados com destaque
Parecem construir a história do país
E revelar o perfil de gerações inteiras
Observei quem andou na resina e os contrários
Usei canivete sem o reconhecer como arma
E elevar a auto-estima todo ano
Esculpia madeira em feições hipotéticas
Descasquei a fruta da estação
O programa não mudava no botão
Era preciso cultivar a terra e seguir para o que sou

José Gomes Ferreira

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publicado às 09:19

Conversas cruzadas

por José, em 29.12.25

É tempo de recolha de indicações
Andamos perdidos na banalização
Saltam à nossa frente utopias de excelência
Escuto conversas cruzadas
Um grupo exalta o papel das mulheres na gestão financeira
Não o faz sem laivos machistas
Outro grupo fala sobre o casamento da filha do senhor Fortuna
Parece que tinha jeito para a costura
E gostava de um ausente chamado Luís
Vivemos vidas cruzadas somente com encontros hipotéticos
Os laços são mais fortes em comunidades tradicionais
Mas já dizia Simmel que a metrópole confere autonomia
Uma autonomia que pode arrastar para a solidão
Difícil é encontrar alguém sem dialogar sobre a vida dos outros
Faz-nos falta o bom dia e o abraço
Toda a liberdade tem preço
A alucinação é a espera do passar dos dias
A doença é quando a vida alheia preenche as narrativas

José Gomes Ferreira

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publicado às 17:28

Peito aberto

por José, em 28.12.25

A fogueira de Natal mostra algumas brasas
As noites trazem o frio do Norte dos Hemisférios
Falam bem das pessoas, dos laços e da fé
O que não significa cair em enganos
Existem muitas disputas escondidas em sorrisos
A Serra da Estrela aparece coberta de neve
O rio Mondego esconde as entranhas
A névoa estende um manto de cristais sobre o leito
A saudade é por agora merecida
E são restabelecidas as coordenadas
Haverá sempre partidas e regressos
A paz é mais feliz onde se construíram as primeiras memórias
Os caminhos estão abertos à presença humana
Percorremos alguns quilómetros em vitória
O grupo segue com convicção
Sei que é tudo passageiro e gera ansiedade
O controle existe havendo encanto
Qualquer lembrança é um baile de corpo e pensamento
Factos que nos ligam a metas e realizações

José Gomes Ferreira

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publicado às 19:31

Seja feliz

por José, em 24.12.25

Seja como o que diz
Na dança do universo
Seja uma estrela
Uma meta a alcançar
Seja inspiração
Coerente no sangue
E na genética da liberdade
Seja guerreiro e líder
Não necessita parecer
Nunca perca a humildade
Seja o tempo que precisa
E as escolhas que o destino gera
Seja delicadeza e compasso
Forte para enfrentar as privações
Determinado nas escolhas
Sensato e humano no sentimento
Seja uma luz ao vento
O farol da esperança
Seja o silêncio que nada esconde

José Gomes Ferreira

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publicado às 15:45

Equilíbrio

por José, em 24.12.25

Os anos passam e não me dou conta
Vence ainda a ergonomia da juventude
Mesmo que os sinais possam trazer indicações
Tem também quem se apresse a passar-me receitas
Alguns amigos chegam ao exagero
É verdade que nem sempre aguento ficar na procissão
Já não posso com os andores da vida
Tem outros momentos que prefiro o silêncio
Não da devoção dogmática de um seminário
Mas da catarse de luz e da imaginação
Dos instantes em que não deixamos chegar perto
E seguimos o livre pensamento como quem segue um mestre
Cumpro as etapas do corpo e essas não as posso enganar
Nem na imitação poderei inverter o percurso
Resta-me preparar e aceitar sem dramatismo
Se correr será o suor que se pega
Ao andar devagar é a luta que esmorece
O equilíbrio recupera a ordem das coisas
E para o alcançar preciso escolher o foco
Apartar-me de utopias e litígios
Venerar a amizade e a natureza
Multiplicar a memória e as conquistas

José Gomes Ferreira

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publicado às 14:23

Transcendência

por José, em 23.12.25

O que tenho a dizer sobre outros tempos
É mera nostalgia dos Natais passados à lareira
Em serões capazes de multiplicar laços
Esses mesmo que residem na suprema necessidade
Talvez aí conheça a minha ambição por bens materiais
Toda a criança esperava por roupa nova e chocolates
Na época transcendiam o másculo gosto pelo consumo
Depois eram também as notícias
Fiquei órfão muito cedo e com mãe emigrante
Numa manhã de Fevereiro acordei sem pai e com a minha mãe em França
Devo tudo aos meus avós maternos
Foram os meus pais adultos na compreensão
A minha mãe distante nunca se esquecia de nós
Só ela sabe a luta dos dias solitários com os filhos na aldeia
E de como eram as preces de renovação
A noite de Natal juntava as minhas tias-avós
Durante o ano deixavam escapar divergências
Naquela trecho da noite esqueciam as amplitudes
Era a minha avó que impunha outra vontade
Exercia em plenitude a imposição de contenção
E assim a noite tinha histórias e personagens
E a crença em como se celebrava a própria luz da vida
Vivi o pleno da memória sem motivos para chorar
Não peço para voltar atrás, sei guardar a poesia da saudade

José Gomes Ferreira

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publicado às 22:45

Não é o caminho certo

por José, em 23.12.25

Não que fosse positivo, separava as famílias influentes das pobres, mas na minha infância o destaque de determinada pessoa era visto a partir da pergunta básica: és filho de quem? Quem é o teu pai? Agora qualquer distinção é feita pelas preferências clubísticas e pela adesão partidária. A política anda a apartar as pessoas entre quem defende algum humanismo e quem diz mal de determinado grupo social para dar nas vistas. Tem muitos sociólogos de bancada: olham, não colocam questões de partida, não analisam, não fazem revisão da literatura, não interpretam os dados, mas logo tiram as suas convictas conclusões, geralmente eivadas de ideologia e de uma dose cavalar de senso comum. Ou seja, a conversa de café anda a estabelecer rupturas e a querer instituir-se como paradigma. E não é do café de tradição, mas da figura tabernal das mini e tremoços. Andamos a regredir na forma de pensar o país. Todos criticam o não desenvolvimento, mas nenhum sai da cepa torta. Desdenhar é muito fácil, mas apresentar propostas concretas é raro. O pior de tudo é que virou moda desdenhar. Da direita à esquerda a política perdeu a dignidade. Importa polarizar e falar mal de minorias ou imigrantes. Problemas como o acesso à saúde, colocação de professores, apoio aos idosos e muitos outros são marginalizados. É tudo um jogo de interesses. Criticam mas retiram benefício. Até parece que não existem compadres e comadres e o jeitinho português que se atribui aos brasileiros. Estamos a falhar e não é apenas no PIB. Falhamos do que defendemos como elementos intrínsecos à identidade nacional. Batemos o pé na defesa da honra, mas sem empatia e sentido de pertença. O sangue do coração pode passar para as mãos. Nunca pensei que a inveja se destacava na nossa identidade. As novas gerações precisam de lutar mais para não confundirem orgulho pelas vitórias com perseguição aos mais fracos. Estamos mais preocupados com a hierarquia de classe que com a nossa própria luta. Não sei que rumo seguimos, mas não é o melhor caminho. A tudo isso acresce a forma selectiva como os órgãos públicos actuam. Os Espíritos Santos e os Castelos Brancos da vida vivem como decentes, qualquer pobre é criminoso por roubar laranjas.

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publicado às 11:18

Questionar o Natal

por José, em 23.12.25

Invertemos as posições para impor um padrão
Queremos celebrar o Natal como o que resta de junção na Humanidade
Só que é tudo tão volátil no forçar de afectos
Insistimos na dignidade pelos actos de consumo
E na definição de família por suposta adesão
O Natal tem tanto de coercivo quanto tem de felicidade
Transformou-se em símbolo da globalização
Num ignorar da vulnerabilidade do planeta
E no sacrifício de quem se esconde na solidão
Para alguns o Natal é uma bomba de exclusão prestes a rebentar
A sua saúde mental não se equilibra na caridade de ocasião de jantares de beneficência
O Natal é para muitos o desejo de que tudo passe rápido
A reminiscência de tradições e memórias ofuscadas
O sobressalto trazido na deslealdade aos rituais e princípios de comunhão
Não se deve colocar como conduta moral e ritual social

José Gomes Ferreira

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publicado às 04:28

Atendimento público

por José, em 23.12.25

Isto não é um poema
É uma reclamação
Ou então é uma reclamação poética
Agora inventaram de trocar o atendimento humano por inteligência artificial
É a melhor maneira de se desistir
O problema é quando se precisa de resolver determinado problema
O primeiro passo é folhear o catálogo
Talvez o nosso problema esteja no catálogo
O problema é quando não se enquadra
Nos melhores casos pergunta: quer ser atendido por um operador humano
Da minha parte agradeço com vontade de dizer: só agora é que perguntas
Também uso esta ferramenta nos meus afazeres
Mas custa-me aceitar tanta magia em algo que gera desemprego e não resolve os problemas colocados
Acusem-me de resistente à mudança
É uma resistência tácita, não por inaptidão
No supermercado não uso as caixas automáticas
Em todo lado evito o que não é atendimento humano
Se ficarem as máquinas os próprios orgasmos nem fingidos são
São um mero impulso digital capaz de descrever as sensações

José Gomes Ferreira

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publicado às 00:30

Pé no chão

por José, em 22.12.25

Posso parecer desatento e a não dizer coisa com coisa
Tanto é que esqueço o destino
E descontextualizo qualquer encontro não previsto
Não é grave nenhuma das situações
Mas sinaliza o cansaço da entrega
Mostra que quem manda em mim é a diabetes
Na companhia da soma movediça da história
Ainda consigo discernir o certo e o errado
Assim como o leve do intenso
Só que não sou de ferro
Necessito dosear o esforço
No início deste ano passei a casa dos 60
Tenho tantos sonhos quanto o amor imaterial
E a felicidade latente na observação da própria condição
Tenho tantos anos quanta a saudade pela aproximação ao universo
Ainda vejo a verdade sem pedir para ser abençoado
Os caminhos que pisei têm agora a minha marca
Simbolizam também o sentir do coração

José Gomes Ferreira

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publicado às 19:23

Tempo e vida

por José, em 21.12.25

O tempo encurta a vida e aumenta a memória
Passamos a olhar mais para trás do que para a frente
O desejo deixa de ser uma vontade carnal
Transforma-se na apoteose da memória
Na crença de que a paz é a melhor conquista
E as recordações são repositórios de narrativas
Onde o próprio coração se entrega sem resistir
Tem quem se convença que o amor é sinónimo de cuidado
Ainda não me entreguei a essa interpretação
Tenho ainda a imaginação a ditar-me os passos
A própria felicidade não se realiza apenas no tempo passado
As portas continuam abertas
As rotinas não são para escapar ao paradigma
São para resistir às leituras dogmáticas
E ao pressuposto da entrega dos anos à solidão
O tempo é a condição da dignidade

José Gomes Ferreira

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publicado às 23:06

Inverno na memória

por José, em 21.12.25

Evapora-se o molho de vides colocado para acender a lareira
As mãos tremem de arrepio
Mal seguram a candeia
E o cabelo desprendido pelo vento
Atiço a lenha nas panelas
Sento-me à mesa a recordar
Espreito no janelo da cozinha
As ruas estão vazias e silenciosas
Não se vê vivalma
Até os cães engolem o latido
Esporadicamente escuta-se um carro ou moto
O relógio da Igreja também marca as horas
São as chaminés que denunciam a presença de gente
O céu azul oxidante marca as cores
No solo a camada de geada é desfeita pelo brilho do Sol
O Inverno chega imponente na aldeia
Talvez por isso a padroeira seja a Senhora da Tosse
Aqueço água e preparo a receita da estação
Não importa a idade, uma colher de mel e um copo de água com aguardente são remédio caseiro

José Gomes Ferreira

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publicado às 22:45

Escrever a história

por José, em 21.12.25

Já vivi muitas vidas
Agora nesta me achei
Sem nunca deixar outras perdidas
Sempre que teve amor me amei

Também eu envelheço
Faço-o de jeito e consciência
Sou mais do que pareço
Com pudor e paciência

Até o corpo se transforma
Nessa rota de maturidade
As ideias ganham forma
E o sonho transforma-se em realidade

Parti apenas das serras e planalto
Não tinha nada para o futuro
Tão jovem era muito alto
Subia as encostas e o muro

Foquei na memória e nas metas
Dei força à imaginação
Segui a indicação de sinais e setas
Segui caminho por paixão

Dizem que é obra do destino
Acrescentam divindades
Acontece que já não sou menino
Construi da história outras verdades

José Gomes Ferreira

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publicado às 07:28

Ó Zé

por José, em 20.12.25

Não te deixes enganar
Ó Zé pela ocasião
Tem quem prometa te amar
Que quer roubar o teu coração

Ó Zé olha o futuro
Não te metas em apertos
Não permitas que saltem o muro
O mundo é para os espertos

Ó Zé meu bom rapaz
Deixa que a paz te conquiste
Tu és certamente capaz
Não aceites quem te despiste

Ó Zé não te alteres
Que o mundo anda às avessas
Tem por aí muito alferes
A querer ser general às pressas

José Gomes Ferreira

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publicado às 18:21

O meu plano

por José, em 20.12.25

O meu plano é sossegar
Ser feliz só de imaginar
Respeitar a natureza nas coisas
Saber como é me amar

O meu plano é tão curtinho
E também cheio de viver
Não preciso de competir
Apenas de acordar cada manhã

O meu plano é ter voz
Nunca abdicar de dizer
Mesmo que o silêncio se faça
E venha tudo da imaginação

O meu plano é de verdade
Tem um jeito de acontecer
Mesmo que não tenha reparado
E assim tenha por onde escolher

José Gomes Ferreira

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publicado às 02:27

Outrora Lisboa

por José, em 19.12.25

Outro dia atravessava Lisboa debaixo de chuva
Caminhava com a água a galalgar os lancis
No Cais das Colunas era o Tejo ondulante
Soltava a pressão pela escadaria
Também eu parei no semáforo
Limpei o rosto húmido e as lentes
Não me apercebi se tinha gente à minha frente
Observei apenas os elementos naturais
Escutei moribundos em várias línguas
E empregados a esconderem os cafés
Passaram 10 anos, mas parecia outro dia
Escutava ainda as buzinas ao desafio
A água a infiltrou-se nas perfurações cutâneas
Mentiram quando disseram que Lisboa cheira bem
A maresia não consegue ocultar o fedor das gavetas
Guardam projectos bafientos com promessas de justiça
Outro dia abraçava a Avenida e o Parque
Chegaram a ter livros no Parque
Alguns ocultavam as prostitutas
Ainda não havia telemóveis quando cheguei
Limitei-me a cobrir os ângulos como quem vive a curiosidade
Atravessava Lisboa como quem atravessa o destino

José Gomes Ferreira

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publicado às 23:36

Agradecimento

por José, em 19.12.25

Olho para o céu e vejo bravura
O esplendor da natureza e o meu próprio lugar
Olho para o céu e está coberto de almas
De toda a luz de quem me abriu caminho
Corro mais com a imaginação que com os passos
Avanço mais com a memória que com o sonho
Não me condeno por si, tudo o que desejo está para a frente
A vontade e o motivo com que luto vem de trás
Isso não significa que resigno, que resignei
Apenas que encontro equilíbrio entre o que desejo e o que vivi
Seduz-me a ambição por um mundo melhor
Tal como o amor e a consciência material
Ainda assim completo-me ao convocar os antepassados e os presentes
A agradecer o pão e a fonte de vida
Não tenho motivo maior de queixa ao chegar aqui
Devo agradecer o quanto se uninaram as preces e o destino
Se desferi lágrimas foram a minha força
Se descansei foi porque mereci

José Gomes Ferreira

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publicado às 22:51

Calma amor

por José, em 18.12.25

Dizes amor, que é o silêncio
Que não me decido
E as pressas da vida são muitas
No próprio sopro que é a existência

Pedes amor, que assuma a parceria
Não a força e a garra
Mas que ocupe o palco ao teu lado
Que me mostra para te narrarem

Acreditas amor, que os gestos são importantes
Mesmo que não representem aquilo que valem
E o sentimento se iluda na aparência
E se fortaleça fora da reserva íntima

Lamentas amor, que eu tenha dúvidas
Não me perguntas, mas interpretas como dúvida
Quando eu apenas gosto da força singela da paixão
E do amor que nem a distância apaga

José Gomes Ferreira

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publicado às 00:01

Natal realista

por José, em 17.12.25

Não se iludam com a minha repetição de tradições
O Natal é uma construção mirabolante
Tem cada vez menos reforço das solidariedades primárias
Com laços e reencontros descritos como costumes
Era também a felicidade em valorizar gestos
O par de meias que se retirava da pranheira
O chocolate guardado para a ocasião
Como também a roupa nova surpresa
Agora tudo isso são horizontes quotidianos
Espera-se algo exuberante, a nossa presença nada representa
A fé é apenas um adereço repetido nos votos
A festa é uma imagética de prendas e viagens
Uma idealização das televisões para se gastar
Os Reis Magos são os botões que activam a publicidade
Jesus, Maria e José são agora a figuras surpresas
Interrompem o sucesso do Pai Natal e das ofertas
A manjedoura é uma qualquer mesa de repasto para quem pode
Só são aceites animais que quebrem a solidão e admiram causas
O Natal é um desejo nocturno de que tudo passe após a ceia
O Natal é uma idealização de família ungida na Criação
As famílias agora debatem-se com o dilema da sobrevivência

José Gomes Ferreira

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publicado às 23:38

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