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Santo António tão brejeiro
Que alegras todas as terriolas
Andas a falhar na arte de casamenteiro
Só te safas com o guito das esmolas
José Gomes Ferreira
Junho sempre foi o mês de regar as batatas e de sachar o milho nos lameiros tardios
Em breve chegaria ao fim o ano lectivo
Daria início às chamadas Férias Grandes
Por três meses estaria afastado de alguns amigos
As férias seriam dedicadas à vida no campo
A muitas madrugadas a ir para a fazenda arrancar as batatas
Uma actividade que sempre foi de entreajuda entre familiares e vizinhos
À medida que o calor chegava era o milho que necessitava ser regado
Nas manhãs de orvalho escanei muito pé de milho
Com o Sol ainda distante empurrei o carro de mão que transportava o motor de rega
Noutras manhãs antecipadas guiei a burra pela estrada e pelos caminhos
O calor desidratava o animal e atraía vespas e moscardos
Acompanhava sistematicamente a minha avó na rega
Tratava de colocar o motor em cada poço
Percorria o rego da água até chegar aos talhões
Parava alguns minutos para olhar o comboio e imaginar o mundo fora dali
Sentava-me à sombra das videiras à espera da água terminar
Dedilhava pensamentos e fábulas nessa fuga
Continuava as histórias que os livros não contavam
Esculpia o destino com uma navalha sem ponta
Observava os pássaros na transformação das cores e dos sons
A meio da manhã regressávamos a casa
A temperatura tornaria insuportável a permanência
Aproveitava alguns dias para dormir a sesta
Em muitos outros Íamos à maior cidade da região ser modernos
No final da tarde também se regava
O dia terminava com as estrelas a escolher o caminho
José Gomes Ferreira
Onde anda a empatia
Que deveria estar presente
Deveria fazer parte do dia-a-dia
Mas não tem ninguém que a represente
Onde anda a fraternidade
Os laços que nos suportam
Quando é necessária solidariedade
E os nossos semelhantes se importam
Onde anda o afecto
E a real consideração
Se não se mostra no intelecto
Não estará no coração
Onde anda a lucidez
Que já perdeu a razão
Deixa avançar a estupidez
Para a qual não damos vazão
Onde andam as virtudes do espírito
Que se confundem com pecado
Respeito obtém-se por mérito
Não se encontra em qualquer lado
José Gomes Ferreira
Na cidade escapa o horizonte
O chão liga-se diretamente ao céu
Não se vê a absoluta beleza dos confins
O estar-se rodeado de tudo quanto é natureza
O espectáculo da luz, da Lua e do Sol
O movimento das nuvens sobre o peito
Na cidade escapa o ar salutar
A imensidão que captura as imagens
Ainda assim a cidade é bela e acolhedora
Um campo de oportunidades e autonomia
A cidade reprime mais o olhar que as paixões
Não tem a elegância da floresta e das montanhas
Porém nela somos quase todos iguais nas oportunidades
Na cidade não escapa o sonho
Ainda que nos coloque perante muitas batalhas a travar
José Gomes Ferreira
Santo António meu amigo
Vens acompanhado de calor
Não me coloques de castigo
Revela logo o meu o amor
José Gomes Ferreira
* Junho é o mês das quadras, pelo menos em Lisboa e um pouco por todo o país. No Brasil os santos populares são as festas juninas, também são bonitas, mas a música é outra. Se for forró de raiz gosto de escutar. Em Campina Grande, no Centro tem música à entrada de cada comércio. Gosto muito. Não aprecio a festa principal para atrair turistas, do barulho nocturno nem se fala. Mas a música popular no Centro é genuína. Neste caso as quadras lembram Lisboa, as noivas de Santo António, a sardinha assada, o desfile dos bairros.
Quero mais que os passos andados
Que qualquer bandeira a mostrar onde estou
Quero mais que a cruz feita na testa
E as rezas nos templos de areia
Quero mais que vento a soprar nas varandas
E espelhos em cada canto
Como se reciprocidade fosse o que eu desejo
Quero mais do que a riqueza material
E a herança em bens e disputas
A lembrar que nada se faz sem dinheiro
Quero mais que exposição
Qualquer montra de virtudes e adoração
Procuro mergulhar na vida e nas ideias
Vivo os abraços e os sentidos
Dou razão à imaginação e à memória
Escuto os sons da natureza e do coração
Dou ouvidos ao silêncio e à confiança
Não corro para ser medalhado
Quero vencer a meta em associação
Não fico de sentinela sobre a vida alheia
Nem sopro atrás das portas
Quero ser livre e escolher
E saber que por mim rezam
E levantam as mãos no ar por aptição
José Gomes Ferreira
Deixa-me ir espreitar o luar
Escutar a paz na imensidão
Deixa-me desprender dos elos
Não é o que sinto que nos liga
O sentimento não vence critérios
Cada um tem o seu mundo
O seu pretérito é superior ao amor
Dizem ser do feitio diferente
Talvez a empatia não esteja em ordem
E os valores nem cheguem perto
Não adianta nem explicar
Para haver respeito nem sempre pode ter paixão
Nesse caso o caminho é de desfecho da razão
Cada um segue para seu lado
É duro aceitar a divergência por oposição
Não podemos enfrentar a insistência por obediência
A felicidade não é uma sobreposição
Nem admite hierarquias e mordomias
Amar é aceitar o orgulho e as prioridades
Ficar órfão do prazer e dos projectos
Erguer a ambição sem medo de seguir
José Gomes Ferreira
Fui feliz no passado
É essa felicidade que carrego
É energia, saudade e optimismo
Não me desfaço em nostalgia
Menos ainda em afirmações saudosistas
Como amor perdido e arrependido
O que se passou já foi
Permitiu ser quem sou
Querer regressar ao passado revela que ficámos presos no tempo
Ou que não nos conseguimos adaptar ao presente
O passado representa história, vivências e aprendizagem
Em circunstâncias que jamais vamos conseguir reproduzir
Dizem que antes é que era bom
Eu tenho uma grande paixão pelo já vivido
Foi magnífico enquanto durou
Certamente não foi paixão assolapada
Mas sim peito cheio nos sentimentos e virtudes
Só que o relógio não pára, a trajectória prossegue
Olhar demasiado fixamente para o passado esconde-nos dos dias
Precisamos viver o hoje para atrair felicidade
E não olhar para os amores de lágrimas perdidas
Qualquer arrependimento leva o sorriso ao abandono
José Gomes Ferreira
Tem quem desespere e recorra ao Senhor
Como também se isole na opinião
Vivemos tempos diferenciados
O momento não está para brincadeira
Quem não tem nada a dizer não se cala
E sobretudo marca presença a pensar que é distinção
Sobe a todos os palcos sem nada a acrescentar
Passa sermão como se fosse padre
Finge muito ser artista
Quem tem algo a acrescentar fica calado
Resguarda-se por covardia ou cautela
Assim andamos à espera de liderança
A contar com um terramoto
Mas sem tirar o cravo da lapela
E sem despertar a consciência da tragédia
Mesmo quando a noite é saída
E o amor um sinal de esperança
José Gomes Ferreira
A distância não é apenas o que percorro
É o que sinto falta no afecto que acrescenta
O brinde à vida e à trajectória
O padrão recorrente das palavras
Por isso sonho e escolho a imaginação
Dou nomes aos lugares que conheci
Atribuo rostos às pessoas com quem cresci
Desenho as curvas das ruas com as casas de granito
Vou admirar a paisagem dos miradouros e socalcos
Por isso também fecho os olhos e abraço as ausências
Deixo cair lágrimas de riso e nostalgia
Vou ver a água a correr feliz nos ribeiros
Traço os contornos da Serra e do rio
Dou outra cor ao cabelo agora grisalho
Controlo a ansiedade e o coração
Por isso cresço e envelheço a pensar no regresso
Quando também me dou conta que sou cada vez mais desconhecido entre os meus
José Gomes Ferreira
Mesmo nos dias trémulos e de voz embargada
E em todo silêncio que uso para contemplar os espinhos
É leveza que procuro
Mesmo que a propulsão seja nuclear
E toda a chama se mantenha incandescente
Como amor de devoção em corpo de prazer
É leveza e paz
Como quem já se superou
E tudo mais são linhas adicionais da história
E matéria para a sobrevivência
Páginas suplementares para alguém escrever
É leveza, paz e nobreza
Não dou o argumento por vencido
Ainda assim sinto gosto pela dedicação
E pelos gestos cuidados das palavras e do tom
Cuidar do coração é agir com bondade com os outros
A moderação e a simpatia são caminhos para a felicidade
A atenção é a porta que sempre deixamos aberta
José Gomes Ferreira
Posso juntar o antes e o agora
O gosto em esclarecer
Verei que tem demora
Tem um genocídio a acontecer
A guerra está naturalizada
Se não nos afectar os laços
O distante não nos preocupa nada
O politizado desfaz-se em estilhaços
Chacinam famílias inteiras
Ainda se acham com todo direito
Os agressores saqueiam as algibeiras
E ainda batem com a mão no peito
Onde tem religião tem terror
Juntando-lhe a vontade de conquista
De que adianta chamarem amor
Quando a acção é bombista
O genocídio continua em curso
Agimos com total indiferença
Fazemos o chamado papel de urso
Exigindo que o agredido peça licença
José Gomes Ferreira
Saudade não é tristeza
Saudade não é solidão
Saudade é com toda a certeza
Resultado de uma grande paixão
Estou aqui tão quietinho
Com o peito cheio de gente
Que sorrio devagarinho
Lembro que na distância estou presente
Saudade não é melancolia
É chamar cada boa recordação
É tratar a vida com magia
E dialogar em paz com o coração
Chego a fechar os olhos de encanto
A lembrar tão bons instantes
Que rejeito cair em pranto
E a sofrer pelos entes distantes
José Gomes Ferreira
O sofá é bom
É o reino do conformismo
Nele se decidem acções (sempre em espera)
E se apresentam traços de mudança (de posição)
Palavras de ordem (para que não sejamos incomodados)
Muita indignação (de garganta)
Braços erguidos (para agarrar nova cerveja)
Muitos gritos (de golo)
Até os cartazes ganham visibilidade (nas redes sociais)
No sofá mudamos o mundo (criticando quem o quer mudar)
Nele até choramos as crianças mortas em Gaza (barbaramente)
Tem mesmo quem aplauda (o genocídio)
Dizemos que pensamos pela nossa cabeça (quando a temos)
Mas o sofá está ligado ao cérebro e ao coração
Tem até quem confunda o momento com felicidade (vai apanhar Sol oh labrego, larga o sofá)
José Gomes Ferreira
Dormi num colchão de palha
Dormi sobre uma arca de milho
Joguei algumas vezes à malha
Também usei piteira como atilho
Fui muitas vezes ao mato
Carregando um molho de lenha
Raramente mudava de fato
O trabalho era a única senha
Das oliveiras retirei azeitona
Quando o inverno era rigoroso
De dinheiro andava sempre nas lonas
Ainda que com tudo fosse teimoso
Com os cântaros trazia água da fonte
Com o cabaço tirava água do poço
Na ida para as aulas atravessava a ponte
Apesar de fazer tudo isso era menino e moço
José Gomes Ferreira
A manhã ainda não tomou forma
Madrugamos no lameiro
Escutam-se também os pássaros
O orvalho deixa uma cobertura de cristal
Uma película que a alma segura firme
Os pés de milho aguardam na expectativa
Esta manhã vieram alguns familiares ajudar
O cabo da sachadeira toca os calos do dia anterior
Acompanho as mulheres na progressão em cada leira
De vez em quando aliviamos a pressão nas costas
Tem um momento em que passa o comboio
Todos conhecem a sonoridade e o efeito
Mas todos se levantam para admirar aquela corrida sobre os carris
Os corpos seguem lado a lado sem se tocarem
Olham-se sem esconder a insistência e a fadiga
O compasso é conhecido de todos
A meio da manhã haverá uma pausa para a piqueta
Um pequeno lanche para fortalecer as energias
Pelo meio dia chegará a minha mãe de cesto à cabeça com o almoço
O calor será agora penetrante e escaldante
Haverá motivo para uma sesta à sombra das oliveiras
Depois é colocar o chapéu de palha na cabeça
E erguer os ombros que o dia segue até estar tudo sachado
O Sol é capaz de esturricar as catedrais
E deixar cair as pétalas das flores
O solo também fica tórrido
Com torrões desfeitos ao jeito do pé
José Gomes Ferreira
* não faz muito tempo a imagem era esta, muita coisa mudou, inicialmente dava uma ajuda apesar da distância, actualmente são quase 6 mil quilómetros de diferença e a própria vida no campo mudou.
É lindo o compasso da Terra
A biometria da exposição e o inventário
Tudo é lindo mesmo sem eu ter razão
A vida em disputa não nos deixa parar
O brilho colocado nos actos é positivo
Só que o sucesso é um tomba horários desmedido
Que se desfaz em mil pedaços como pó
Queremos sempre mais no topo do mundo
Inventamos os Deuses para ter o delírio dos altares
Inserindo padrões que existem fora das escrituras
Tudo é mercadoria na globalização
E não preciso convocar nenhuma ideologia
A própria compaixão tem um preço
O amor tem sido medido por prosápia
Na herança de que ninguém se quer desfazer
Mas o mundo não é o mesmo
Ainda que continue a excluir o inverno
E a achar que qualquer reivindicação é revolta
É difícil acordar sem o coração em transe
A informação desencontrada é muita
Ninguém me quer explicar nada
Apenas legitimar as divisões referidas às palavras de ordem
José Gomes Ferreira
Agora o Chico Esperto é Doutor
Com todos os pergaminhos
Ilude os portugueses com um supor
Que os lúcidos ficam danadinhos
Afinal a síndrome não é ocasional
Tem tiques de patológica
Parece tudo um Carnaval
Só não tem divertimento nem lógica
É tudo um role de enganos
Numa narrativa transformadora
Se na Avenida fala mal dos ciganos
Foge das ruas plurais da Amadora
Tudo não passa de propaganda
O povo não gosta de quem caga lérias
Porém obedece a quem manda
E na obediência perde-se das ideias sérias
José Gomes Ferreira
Não se trata de superação
Mas de aprendizagem
Muita luta e humildade
Um brilho especial a revelar dignidade
Uma presença que pode ser inspiração
Sei da minha história e como reverti percursos
Tudo isso é pouco se ignorar o próprio orgulho
O respeito dos amigos e dos pares
Os aplausos das próprias circunstâncias
Não cruzo apenas cidades, atravesso vidas
Além da memória e do afecto, nada é mais importante que o nosso poder transformador
A nossa capacidade de ensinar, escutar e inovar
A adaptação moldada nos desafios
O prazer que nos leva a seguir juntos nos nossos papéis
A vocação sem explicação, como exercício prático e resultado
Temos sempre altos e baixos
Ainda assim a felicidade dessa partilha é que me move
Mesmo que por vezes traga comoção
É ela que dá calor ao silêncio e redobra a energia dos impulsos
José Gomes Ferreira
Esta semana viajei do Nordeste para Curitiba, cidade que parece outro Brasil. Na verdade existem muitos Brasis nessa imensidão, pelo que é sempre uma enorme satisfação conhecer um pouco mais. A parte mais chata neste caso, além da despesa, é todo o aparato da viagem, sobretudo pelo facto dos voos estarem organizados a partir das principais cidades. Viajar de Natal para Curitiba leva quase 10 horas, o que não significa que seja esse o tempo de voo. A primeira paragem é em Recife, segue-se Guarulhos em São Paulo e depois o destino final. São muitos modelos de aviões.
O primeiro trecho começou com atraso. Depois, em Recife o avião precisou corrigir um problema hidráulico e, pior de tudo, uma passageira arrumou barraca antes de entrar no avião, a companhia e as autoridades expulsaram ela do voo. Enfim, peripécias que quase levaram a perder a ligação em São Paulo. O facto do terminal 1 ser da Azul e não ter o movimento dos terminais 2 e 3 ajudou.
Ontem comecei a manhã com uma apresentação, ainda estava cansado da viagem, mas foi muito bom. Faltou dizer que nessas viagens todas no máximo a companhia dá para comer 2 pacotes de amendoim por trecho e água ou suco. Não deu tempo para comer nada mais nos aeroportos.
Curitiba é uma cidade moderna, tal como as europeias, dita a mais inteligente e sustentável do mundo. À saída do aeroporto impressionam os luxuosos hotéis. Talvez não consiga visitar o Jardim Botânico e outros pontos, visitei um pouco do Centro. A cidade é linda, mas esse centro revela muitos contrastes. Muita gente sem-abrigo, muitas lojas fechadas, muito comércio tradicional que não é tradicional. Apesar de tudo a percepção de segurança é boa.








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