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Não se iludam
Nem no amor sou neutro
Tradicionalista ou não
Neutro nunca
Sempre respeitoso nas opções
Mas nunca neutro
Também não sou neutro nas ideias
Só não frequente arraiais
Nem me interesso por convicções alheias
Não sou militante
Não preciso levar ninguém em ombros
Essa posição não faz de mim neutro
Tem muitos canais de regimentar
Não me interessam bandeiras
Por vezes não significam convicções
Apenas misturas para superar a invisibilidade
Tenho sempre vontade de dizer muita coisa
Evito é a minha posição cause atropelos
Não disputo rezas ou ideologias
O que não significa que me acomodo
Quem marcha entre as tropas não se posiciona
Está apenas elegível para mostrar
E aplaudir um dos lados da barricada
Reservado sim, neutro nunca
José Gomes Ferreira
Anda uma nave a trazer anomalias
Todos os dias descem na Terra soldados
E homens que se dizem de paz com armas na mão
Chegam arautos da violência
Genocidas com o apoio das nações
Aterram e são bem recebidos
Em simultâneo ninguém salva as famílias
Ninguém as retira do cerne dos conflitos
Milhares são mortos e ninguém lhe acode
Dizem que a culpa é dos terroristas
Fica difícil identificar quem neste momento é terrorista
Anda uma nave a distribuir destruição
Poderia levar-nos para um mundo melhor
Já não sabemos em quem acreditar
José Gomes Ferreira
O problema é que a gente se acostuma
À solidão como silêncio
À paz de que ninguém nos incomoda
Ao calor que se finge no coração
A gente se acostuma ao passar dos anos
E deixar bom dia e dizer boa noite
Dando a resposta e a eloquência
Na certeza de que a vida corre bem
A gente se acostuma a não fazer comparação
A agir sem pensar em depender de ninguém
A escolher os planos como abraços
A guardar para outras vidas as orações
A gente se acostuma a ser feliz com pouco
Em acordar com a coragem renovada
A nunca esquecer da imaginação e do sonho
A manter em palco a vida e o sentimento
José Gomes Ferreira
Não sigo mais de enxada às costas
Ainda que o suor continue a não suportar o rosto
E no meu coração esteja tudo muito presente
Tem murmúrios a esconder a paisagem
Escondem o rio e a serra na distância
Relembram todos os que subiram aos céus como seres de luz
Tem pedras que falam na minha ausência
Acredito que se refiram a quantas vezes com elas me cruzei
As mãos estão calejadas da memória
Só de as abrir e fechar na intenção
E de abraçarem o musgo e o vento
Já não guardo ovelhas ou pastoreio uma cabra
Mas o rosto treme de ternura e pensamento
Os aviões continuam a marcar a sua passagem
Velhos e novos habitantes seguem nas ruas de granito
Tem quem pare para deixar passar o tempo
Tem muita casa praticamente vazia, é raro ver vizinhos na soleira da porta
Apetece-me tanto ir na vinha comer os últimos rabiscos
Sinto o aroma a maçã acabada de apanhar
Deixei de subir às árvores, compro-as no supermercado
Encho uma gamela e alguns baldes
Coloco tudo na carroça à minha frente
O pó do restolho respira lentamente com as primeiras chuvas
Guardo algumas lágrimas para disfarçar a viagem
Escuto as corvachas sobre a mata ardida
Também elas não pensam para já regressar à terra
São necessárias várias Primaveras para restabelecer a esperança
José Gomes Ferreira
Tem tanta gente de boca aberta
E coração tão apertado
Tem tanta gente armada em esperta
Esquecem é o cérebro congelado
Tem muito povo que enjoa
Mistura Coca-Cola e alma
Na hora da chamada abandona a proa
E acusam-nos de falta de calma
O mundo não está para simpatias
Outrora reguila era líder
Agora quem se manifesta são as tias
E é o salve-se quem puder
A apatia é quase total
E quem fala arma-se em moralista
A burrice é assim fatal
Coitado de quem se diz ser activista
José Gomes Ferreira
Amei-te a noite passada
Amei-te noutra vida
Também me amei
Também me escolhi
Nunca deixei de prosseguir
Nunca abandonei o sentimento
Só que ontem as nésperas estavam prontas
Hoje estão demasiado maduras
Talvez alguém as tenha apanhado
Quem sabe foram levadas pelos pássaros
Podem também ter caído no solo
Amei-te e não te disse
Andavas eufórica com a imagem
Tinhas vontade de vencer
Nunca me citaste
O amor não se constrói necessariamente nas declarações
Não te disse com medo de deixar fugir a paixão
E da imaginação me abandonar
Amei-te a noite passada
Foste recordação em tempo de tréguas
Ainda hoje me lembro o quanto te amei
José Gomes Ferreira
Tem muito cara avariado
Tem muito fulano a bater mal
Pois mesmo comigo acostumado
Surpreende-me o que é normal
Tem quem dê bobeira
Tem quem seja desastrado
Uns até são à maneira
Outros são um pé rapado
Tem muita coisa gira
Tem muita coisa legal
Entre tudo tem mentira
E tem muita hora infernal
O pior é o significado de rapariga
Que em Portugal é sinónimo de moça
E se mandar alguém à(s) urtiga(s)
Importa não por a pata na poça
Tem quem pegue carona
Tem quem vá de boleia
Pior é o estigma da maria-mijona
E o falar da vida alheia
Sem esquecer a parada de ônibus
E a paragem de autocarro
E essa treta dos tabus
E o negócio dos santos de barro
Tem quem faça muito chinfrim
Tem quem exagere na zoada
Mesmo com o aroma a alecrim
Eu já não digo é mais nada
José Gomes Ferreira
Certifico cada palavra
Certifico a alma nua
Tiro da língua a trava
É o corpo que se insinua
Acompanho as estrelas
Dou voz ao coração
Recolho as rosas mais belas
O aroma lembra ilusão
Peço desculpas à noite
Chamo os sonhos na partitura
O esquecimento levou um açoite
Terá sido num momento de loucura
Percorro ainda mais lugares
Entre aqueles que tinha previsto
Gosto muito de novos ares
Abrem caminho a novo registo
Sei porque escolho a liberdade
Sem que deixe de amar
A intenção é de reciprocidade
Nunca me vou simplesmente conformar
José Gomes Ferreira
A um ignorante dá-se comer
A um pobre dá-se educação
Ao primeiro dá-se desprezo
Ao segundo consolida-se a formação
Se for pobre e ignorante damos distância
Se for rico retiramos a atenção
O pior pobre é o que excede a posição
E acha que ascendeu de classe
Rico e pobre não é apenas condição
É o dinheiro sobre o sentido de Humanidade
Pobre é o que se julga na intenção
Rico é quem dá um destino aos outros
José Gomes Ferreira
Se for leveza chama por mim
Se for brisa sopra no meu rosto
Se for paz chega ao meu coração
Se for luz aquece a minha pele
O que conta é que me toques
Que chegues a mim livre e sem promessas
Não importa se atravessas o oceano
Nem se despertas encanto na noite perpendicular
Se fores verdadeiro não te abstenhas
Não corras sem voto a espantar a esperança
O que importa é que me descubras
E a partir daí se siga o caminho das utopias
As escolhas sincronizadas sem medo dos relâmpagos
José Gomes Ferreira
* Tentando evitar temas sócio-políticos, o que nem sempre é fácil. Nesse sentido, andei a olhar blogs antigos que fui criando sensivelmente a partir de 2000 e pouco. O meu primeiro e principal blog de poesia, que agora voltei a colocar público, foi o https://labirintodesilencios.blogs.sapo.pt/. A versão existente tem início em 2005, mas na época teve uma reestruturação da plataforma e acabei por refazer o blog.
Olho para trás e vejo flores
Quintais e escadas repletas de colorido
Olho para trás e vejo rostos de mulheres
Histórias de vida e ensinamentos de idosas
Olho para trás e vejo campos de milho e centeio
Socalcos ocupados com labor
Olho para trás e vejo-me no amor de laços
Ainda que por vezes a sua expressão possa sair envergonhada
Olho para trás e não vejo arrependimento
Tenho retirado da vida lições de felicidade
Mesmo que por vezes a dor perpasse a história
E o jeito oblíquo das ausências leve a reflectir
Não vejo muitas paragens quando olho para trás
Também não deixei disputas de amor em aberto
Guardo ainda o coração nas nuvens para que possa flutuar
Para que se reinvente sem necessidade de fingir
Olho para trás e acredito na plenitude
Tenho vivido uma existência simples
Da agricultura à vida académica mas com leveza e sublimação
Mesmo que seja insuficiente dar a mão ao vento
Deixo o olhar e o peito firmes na primazia da estima
José Gomes Ferreira
Tenho saudades do amor nas veias
Dessa droga que alucina e satisfaz
Não é motivo de contrabando
Nem gera negócios e milícias
Apenas o amor na pele e na carne
O amor igualmente cerebral
E a vertigem do coração
O amor que nos acorda nas madrugadas
Na felicidade que o outro motiva
Esse amor sem barreiras e fronteiras
Sem dificuldade em organizar os dias
Não é amor de calendário
Apenas amor ingénuo e brilhante
Tal como a luz na água da fonte
E o céu azul sobre o espectro da observação
O amor pleno e direto
Não o que fala baixinho
E se guarda para a noite
José Gomes Ferreira
Pouco importa se é uma triste figura
E se escuto os mais escrotos comentários
Jamais abdicarei da luta pela liberdade
Do que considero serem princípios básicos da dignidade humana
Da consciência da promoção equitativa de direitos
Não me vendo na usura de cargos públicos
Nem no abanar do capital para enriquecimento
Também jamais pensarei apenas em mim na expectativa
Não estou só quando se trata de considerar os excluídos
Falta Humanidade na eloquência da ideologia
E o respeito é esfregado no rabo das bandeiras
Não alimento discursos de esquerda ou direita
Lembrando que a pedagogia do oprimido é blasfémia para os poderosos
E que tem quem nos faça acreditar na pedagogia da antipatia
Ainda assim entre os piores estão os peões dos conventos
Soldados que marcham na sua brutalidade a mando
Entoam cânticos patrióticos e slogans de propaganda
Tristes os que se abatem na obediência
E triste o destino acompanhado pelo desperdício de sangue
O suor das ideias esse só cai dos corpos tombados
Dos gentios que desobedeceu aos carnavais
E reafirmam de peito firme DITADURA NUNCA MAIS
José Gomes Ferreira
Ligo o fio terra
Ligo a imaginação
Completo-me com o espaço
Preencho-me com a vida
Sou também natureza
Parte da simbiose e verdade
Os meus olhos trazem dúvidas
Talvez deva consultar a razão
Os meus pensamentos pedem diálogo
Sou onde habito e como habito
Rio, montanha, planície e mar
Pureza e mão exploradora
Sou também humano e de qualquer espécie
Só não sou igual a outros seres
Medito e preciso chamar a responsabilidade
Sou ventre pensado, produto da gestação
Vontade, cúpula e cautela
Fogo no peito para proteger a mata
Sou ansiedade e satisfação
Vontade de abraçar o mundo
Desejo de diminuir as disputas entre iguais
José Gomes Ferreira
Sopra-me ao ouvido
Quero ouvir-te
Fala-me baixinho
Soletra o silêncio
As palavras corpóreas
As frases de declaração
Desenha as vozes
E as carícias na pele
Toca a luz e o arrepio
Esquece as horas
Ignora o tempo perdido
O novo silêncio é construção
Transforma a reciprocidade
Apresenta-a com cores e aromas
Sopra-me baixinho
Toca os meus ouvidos
Olha-me nos olhos
Somos seres completos
Espelhados no sonho
E na catarse da imaginação
Abraça-me intensamente
Vive em mim como plenitude
José Gomes Ferreira
Estamos a trocar sentimentos e saberes
A achar que tudo se resolve com inteligência artificial
Triste rumo o da Humanidade
Abdica do que lhe é mais natural
Sentir, amar e conhecer não vão ser a mesma coisa
O pior de tudo é que naturalizamos
Achamos moderno e inocente esse recurso
Quando o risco de embrutecimento está presente
Sem esquecer a dependência maquiavélica
E os elevadíssimos custos energéticos
A Humanidade precisa de bondade, vontade e fraternidade
Não de novos deuses para concretizar o truque e flatulência de ideias
José Gomes Ferreira
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