Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Não sei que lado imaginar
Podem até me classificar como bipolar
Vivo a confusão dos hemisférios
Com estações alternadas e lembranças sobrepostas
Presencio a Primavera, tem porém o paladar de Outono
Ainda que se invertam as cores
E a paisagem seja marcada pelas transições
No Sertão assume evidência a seca
A marca sazonal de uma paisagem ocre
Uma forma de observação de tez vivida
A lembrar o silêncio profundo da despedida
E a imensidão da distância e da espera
Já na memória aguarda a diversidade de cores
Do Outono agora apenas imaginado nos socalcos
Os torrões molhados com aroma a chuva
As vinhas com folhas multifacetadas de escolhas
O olhar pasmado que a fotografia não capta
Tal como o som da água que regressa às ribeiras
E o chilrear das aves a arrecadarem a última colheita
Em ambos os lados a natureza é o bálsamo da disposição
Vive do perfume e delicadeza do retrato
O recorte que a alma capta para narrar às gerações futuras
A obra incrédula da luz sobre a sublimação
José Gomes Ferreira
Quando oferecemos um biscoito a um cão ganhamos um amigo
A partir daí fica feliz com a nossa passagem e faz questão de o demonstrar
Quando lhe batemos o pé e o atiçamos não temos mais permissão para atravessar o ponto onde se encontra
Podem passar vários anos o animal nunca esquece
O mesmo acontece com o ser humano
Se estendemos a mão e o convidamos para falar, encontramos uma parceria para construir o futuro da Humanidade
Se colocamos em causa a sua dignidade através da nossa superioridade estamos a declarar guerra
Precisamos de um mundo com mais escuta, mais diálogo e tolerância
O umbigo é bom manter-se limpo
Mas seja o que for o que o distingue não faz ninguém superior
José Gomes Ferreira
O vento bate como cetim nas pernas queimadas
Enchendo de cores a passagem
Iludindo as vertigens de luz
E o olhar que se faz à janela
Sopra para abanar as concepções
Somente caiem pétalas e folhas secas
Os soldados continuam a mando
Verticais nas cadeias de comando
Sopra e arrepia a pele
Sobram medos nos tempos modernos
Como frustrações e lutas
Imagina-se longe o insucesso
Tão longe que viramos a cara para o lado
Mas em cada esquina sente-se o arrepio
O critério para degustar o silêncio
E franzir o texto com aspas
As mesmas que colocamos nos sonhos
E nos mergulhos no mar revolto
Chegamos a tirar os sapatos
E a estender uma perna de cada vez
A cautela ajuda na contrição
Talvez o terreno molhado não seja assim tão mau
Quem não arrisca não grita vitória
Mesmo que seja apenas da satisfação pelo sorriso
A coragem por não desistir
José Gomes Ferreira
Tem novas formas de escravidão
Nesta disputa que é a vida
Na busca por sustento e pão
A cada etapa é uma corrida
Não é à toa que se agrava a guerra
E a Humanidade está em perigo
Tem tantos donos a reivindicar a terra
Como egos a cuidar do umbigo
Chamam ao consumo felicidade
Colocam Deus no caminho da salvação
Tem quem confunda dogmas com realidade
E obediência com boa educação
Afinal tudo é apenas uma passagem
Na qual se escreve uma história
Não adianta preparar a bagagem
No fim de contas seremos mera memória
José Gomes Ferreira
São passos e são beijos
São aproximações e não desejos
É tudo o que o amor disputa
E o coração consegue conquistar
Mesmo que também tenha contradições
Se tem baile é na consciência pura
Com a dança dos gostos
A pressa dos mirones nos cortejos
A vontade poeirenta em falar
A atenção sobre a vida alheia
A alocação das perdizes sobre campo raso
Os sonhos também contam
E toda a imaginação narrada
Porém, o tempo é do vivido
Não se vive sem observar e desejar
Sem descrever e sentir a liberdade
José Gomes Ferreira
É como síndrome de pai ausente
Mas sou filho amparado pela escolha
A minha mãe é minha filha
Na preocupação e no quotidiano
Na distância física que move o pensamento
No final do dia descreve as zangas
Pormenoriza as peripécias e as vitórias
Dá destaque às conquistas
É assim que julga se diferenciar
Eu brinco com ela nas palavras
Assim como no estímulo da memória
Podem contar muita coisa sobre mim
Não haverá exactidão no superar das ausências
Nos dias movidos a preces e a esperança
A minha mãe é minha filha
Também na lonjura do quotidiano
E na linguagem dos afectos adiados
Na graça de a escutar e a acolher no coração
José Gomes Ferreira
É um perigo este caminho
Esta ideia de que agora temos alternativa
A polarização política é uma doença
O seu efeito vai para além das ideias
Atravessa a luz e as almas
Altera o génio humano
O que até aqui era construção agora é ódio
Começa com os estrangeiros
Qualquer dia odiamos os amantes
Já denegrimos quem não é branco
E quem opta por ignorar o cristianismo
Qualquer dia abatemos os vizinhos
Ódio somente puxa ódio
O que achamos ser diversidade partidária
É agora uma cadeia de ódio
O mundo está a cair no abismo
A Humanidade perdeu a valentia e dignidade
Disputa espaços e disputa vidas
É facínora e decadente
Tem quem aplauda na ilusão
Vamos despertar enquanto é tempo
José Gomes Ferreira
Não enxergo nem a Lua
Nem a vida que não escolho
Quero a autonomia que é devida
Na noite que o silêncio quebra
Não falto com as palavras
Mesmo que feche os olhos
Gosto muito do argumento
Não fujo às promessas
Conheço o barulho que fazem em campanha
Preocupo-me com o efeito na imensidão
Só não posso gritar por um Deus
E abandonar as almas em sofrimento
Quero muito sanear a divergência
Não me interessam os delitos
Todo o mundo sofre mais que aparenta
Pouco importa o confrontar de posições
José Gomes Ferreira
Não me chamem se não for para acreditar
Se a redundância levar o amor
E a fraternidade for uma história
O verso de uma canção de embalar
Não me chamem se não for para lutar
Se não tiver diálogo e mangas arregaçadas
Mesmo que depois tenha arrependimento
Não será por não ter dado tudo
Não me chamem se não for para conhecer
E construir o meu lugar na fala
Em que o povo é memória e convicção
Como certeza para preparar o terreno
José Gomes Ferreira
É o pior engano
O amor não é livre
Depende de dispositivos bélicos
De condições de classe
E parapeitos estéticos
Obedece a padrões e representações
É submisso a práticas e modos de vida
O amor não é sentimento
É um compromisso de base material
A reprodução de hábitos e redes
É também vício da presença
O lado a lado permanente
A insistência nas declarações
A banalidade da posse
O amor é banal
É mais racional que a ciência
Usa o charme e o desejo como método
Articula narrativas e rituais
Vai à missa pela água benta
Mas no enlace prefere a água do mar
Usa a sedução para a conquista
Para depois a assumir a posse
Tem amores verdadeiros
Simples, cativos e conscientes
Esses são olhados pela crítica
O amor é plenamente aceite quando transgride
José Gomes Ferreira
O meu coração bate certeiro
Não gosta de rodeios
Conhece o significado de pecado
E do que o faz sorrir
O meu coração é tão meu
Que chega a ficar isolado
Apesar da saudade em direcção continua
E o desejo que não lhe dá sossego
O meu coração parece marfim
Colocado num pedestal
É vida e programa
Começo e coragem de existir
O meu coração não reclama
Gosta de paz e luz
Escolhe a memória e a lembrança
Gostaria de saber quem o ama
José Gomes Ferreira
É lá fora que está o canto e o mar
Saúdo as flores e todos os genes
Pouco importa a lembrança
Se para o amor não é nem contentamento
Tem ainda vento a soprar
E palavras que nos deixam em diálogo
Passo no Domingo e atiro o laço
A roda que brilha é da imaginação
Passo na terra e lembro a vida
O janelo da casa é ainda de infância
O pé na estrada não é para fugir
Do Sol não tem como escapar
Escutam-se vozes como no canto dos pássaros
Ternura de sobra só nos navios
O caminho a seguir é do movimento
Chovem ideias de quem não viveu
Pouco importa a passarola
Se a alma não menstrua e a água não tem remédio
Sonhamos com um mundo perfeito
Um misto de pudor e aguarela
Um abraço fraterno e uma paixão
A verdade em primeiro lugar
Quando não existe mais nada a revelar
Nem beijos para escolher a Lua
Nem lugares que se chamem nossos
José Gomes Ferreira
Não tenho mais sonhos de menino
Esses ficaram lá para trás
Nem olho para o passado com nostalgia
Muito menos com mágoa
Vivo reconciliado com a minha história
O que agora propago são as narrativas sobre o já o vivido
O estímulo à memória e à imaginação
Mas sempre consciente da contingência dos tempos
Não faço cobranças a ninguém, nem a mim
Vivi plenamente o que me era permitido nas circunstâncias
A infelicidade foi pelas perdas humanas
A felicidade é pela gratidão de quem me ensinou a dar novos passos
Se deixei algo por realizar estou ciente que uma gama dos sonhos são para encantar
E ainda hoje me encanto pela vontade de superar a fantasia
José Gomes Ferreira
É por medo das alturas
É por medo de avião
Que solto as amarguras
Tiro o aperto do coração
Se o amor tivesse rodas
E não chegasse a saudade
Não importavam as modas
Apenas a definição de verdade
Pode ser um desperdício
Tanta luta para chegar
Viver é também um vício
Com um tecto para nos abrigar
Também me falam em esperança
Na felicidade que queremos
Em toda a forma como se avança
Tudo o que na imaginação seremos
José Gomes Ferreira
O clima muda mais que o coração
No risco de a todos afectar
Os corações refundem-se no isolamento
Por vezes tristes, mocambos
Mergulhados em mercúrio ou cobertos de pó
A racionalidade nem atenção lhe dá
Ninguém quer saber dos corações
Apenas de qualidade de vida e movimento.
Já o clima tem dado muitas cambalhotas
Germina, fecunda narrativas de engano
Desperta loucos e ilusionistas
Irrita defensores da ciência
No Outono europeu sempre fiz a vindima
Apanhava os últimos figos antes de serem apalpados pelos mortos
A 1 de Novembro gerava-se esse mito por acção da chuva
Atualmente no mesmo Outono a corrida é para a apanha da azeitona
Não vá ela apodrecer ou ser devorada pelos bichos
Já ninguém apanha azeitona pelo Natal
José Gomes Ferreira
Depois de tanta união para trazer a liberdade
Em que os capitães são ovacionados pelo povo
Surge a corrupção a questionar a verdade
E surgem utopias que não apresentam nada de novo
Talvez o maior erro seja de interpretação
Considerando-se liberdade como facto
Só que ser livre é uma nova condição
Que exige que se renove cada acto
Não adianta assumir que está tudo feito
Quando é preciso construir a cidadania
Para o eleitor e para o eleito
É também necessário repensar a soberania
E é com um bom Orçamento
Que se projecta uma nação
Pois tudo precisa de planeamento
Nada se faz com o simples estender da mão
José Gomes Ferreira
Não sei qual o destino
E onde posso chegar
Sigo em improviso
Em generalização da escolha
Respondo às necessidades
Sigo vários caminhos
Anda o Sol lá fora para eu ver
O amor encosta-se à imaginação
Não quero perder nada
Porém não sou omnipresente
Nem o brilho chega na distância
Nem os aromas permanecem
A vida não é um baile de máscaras
É necessário dar a cara
É fundamental entregar o peito
O que depende de nós está na motivação
Tudo mais são acrescentos superlativos
Já usei muita roupa com remendos
São acrescentos das circunstâncias
Não é por isso que perdemos o orgulho
Nem nos defendemos da timidez
José Gomes Ferreira
Em terra de Sol raiante
Esculpindo até o pensamento
É a vontade que nos salpica
E a necessidade que nos move
Cantam os pássaros na madrugada
Para chamarem a atenção
Correm as árvores e os fios eléctricos
São escolhidos para brilharem
O coração regressa ao peito
Depois de ter ficado adormecido
O novo dia também o preenche
Na luz e na imaginação
Anda a saudade tão oculta
Nos dias que levam o corpo a correr
Tudo parece distante no hábito
No vício sedentário de cada um
José Gomes Ferreira
Tem palavras que são sementes
Promessas de amor total
Certezas já com a luz do caminho
Pontuações do que queremos para a vida
Atracções de espírito e alma pura
Tem palavras claras e fatais
Desfazem dúvidas e ajuntamentos
Lembram preces e oração
Juras de quem vai amar perdidamente
Festejos de gente que acredita
Incitamentos à confiança e ao perdão
Tem palavras que agregam e dão razão
Surgem como abraços na noite escura
Despedidas que nunca o são
São gestos e expressões de coragem
Narrativas de quem acredita na vitória
José Gomes Ferreira
Precisamos rever conceitos e análises
Pouco sobra da moral e dos padrões
Como da inclusão social e resultados
Obedecem os previstos
Desobedecem os entalados
Uns remetem para os deuses e para a ciência
Outros para a insanidade das maiorias
E para o incitamento raivoso das ideologias
Não é lacaio quem obedece
Esse aceita os padrões e contribui para a sua revisão
Quem desobedece não é necessariamente revolucionário
Essa é a utopia dos líderes proletários
Agora quem desobedece é anarquista ou reaccionário
A obediência é respeito moral e cidadania
A desobediência está a transformar-se em terrorismo
José Gomes Ferreira
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.