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Mar de rosas

por José, em 30.06.23

Os campos de batalha são também as leiras sem água
As mesas de almoço, os frigoríficos e as despensas
Aí travam-se grandes lutas quotidianas
Querem convencer-nos que a luta está nas televisões
Porém, ela sai de casa para o mundo à procura de paz
As dificuldades da vida têm escamas e espinhos
O mar de rosas só existe na utopia

José Gomes Ferreira

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publicado às 23:56

Amores

por José, em 30.06.23

O amor frisante escoa pelos cortes
Corre insaciável nas carícias
Nos poros cristalinos do desejo
No embalo da latência e fluidez

O amor ambulante é vadio
Não tem morada conhecida
Encontra tecto nas arcadas e nos seios
E nas noites em que marca encontro

O amor comprometido é promessa
Tantas vezes adiada e enganada
É o padrão dos nervos sobre a exigência
Ideal para quem escolhe subir nas certezas

José Gomes Ferreira

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publicado às 21:28

Assim se faz o Verão

por José, em 30.06.23

Comunico com a luz do Sol e com a alma
Mais do que compromissos e redes sociais
Ajeito os passos e os olhares pelas ruas e pontos de herança
Encho o peito de lágrimas suprimidas
Urino na convergência dos pensamentos com a ansiedade
A glicemia deixa-me de prevenção a altas horas
Ao meio dia visito as Senhoras no Centro de Dia
Apenas as do grupo que rejeita envelhecer sem resistir
No qual pontua a minha mãe sempre colaboradora
Converto os olhares em possibilidades de partilha
Andam no ar os aviões a saudar os pássaros
E nós temos reticências a amar as flores
Mando beijos ao amor sonhado nos enclaves
Não dou importância ao olhar padronizado dos mirones
Andam todos a desenhar a vida a partir de novelas
Prefiro o sabor autêntico das palavras sem veneno

José Gomes Ferreira

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publicado às 19:15

Testemunhos

por José, em 29.06.23

Não sei se temos o destino definido
Sei que as sociedades mudam nos movimentos lentos
Lembro de agir como um bom agricultor, que nunca fui
Na adolescência andava sempre com uma pequena navalha
Não era branca, nem arma e não se distinguia na cor
Não era de ponta e mola, pois nem ponta tinha
Com ela cortava o que fosse preciso
Também fingia esculpir raízes de madeira
E comia pepino com sal tirado da terra
Eram pepinos semeados ao natural no meio da vinha
No momento do lanche abria 2 golpes em cruz e colocava sal
Era uma navalha para fazer o bem
Tanto cortava pão como um cordão a prender um animal

José Gomes Ferreira

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publicado às 23:15

Passagem

por José, em 28.06.23

Chamo-me passagem
E nesse interregno tudo se agita
Para depois tudo permanecer ao redor
O mundo vai e vem, como o vento
Sendo sempre desigual no sopro
E igual na continuidade
Posso deixar uma linha como lembrança
Somente ganha força se for lida
Tem a grande enciclopédia da história
Nela podemos ser lembrados ou esquecidos
Podemos ser saudade ou apenas pó
Não adianta deitar os olhos sobre a vida dos outros
Nem cobiçar as riquezas do mundo
A barriga cheia é um contentamento passageiro
A nossa passagem será marcada pela bondade
E pela magnitude dos nossos actos
A soberba não deixa dormir nem os indiferentes

José Gomes Ferreira

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publicado às 10:23

Regresso dos emigrantes

por José, em 27.06.23

Recordo o meu pai e a nostalgia da perda
De quem fui filho um punhado breve de verões
A esta hora os emigrantes fazem as malas
Agosto é o mês da espera e reencontros
Tem festa nas aldeias e cerveja gelada
É certo que os tempos mudaram
As ruas na aldeia enchiam-se de gente
A maioria falava francês de remedeio
Na feira mensal carregavam na pronúncia
Entendo cada vez mais a sua exibição
Não é fácil fazer vida fora do nosso país
Mais que a saudade é o acolhimento burocrático
Cheguei antes de Agosto e não vou alugar um Mercedes na fronteira
Na verdade perdi o jeito e a vontade de conduzir
O meu regresso é recorrente e esperançoso
As festas da aldeia repito-as ao sair à rua
Abraço até as pedras da calçada e o aroma das flores
Adiantei-me no reboliço da nostalgia
Ainda apanho a fonte com a água fresca
E a sardinha com molho a escorrer na broa

José Gomes Ferreira

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publicado às 23:01

Ontem

por José, em 26.06.23

Hoje acordei com desprezo pelo umbigo
Senti uma vontade enorme em ser multidão
E agarrar nos jornais para ler alto as notícias
Ontem trazia as faces engasgadas
Competia para me varrerem a porta
E colocarem o meu nome nas flores oferecidas para a Igreja
Ontem queria mostrar que não apenas conto
Exigia ser tratado com vénia e reverência
Ontem todos nós fomos assim
Orgulhosos a defender cruzes e marcos
Déspotas a assinalar a posse de água
E a lenha a marcar posição na rua pública
Ontem usava uma coroa para lembrar que tinha o rei na barriga
Hoje quero apenas atingir a paz dos plebeus
E interpretar a simbologia da memória colectiva
Ontem queria ser dono do rebanho de ovelhas
E disputar ordens para me orgulhar
Hoje quero apenas declarar amor ao vento e à saudade

José Gomes Ferreira

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publicado às 23:37

Antes isto que aquilo

por José, em 26.06.23

Antes neurose que cirrose
Antes abandono que falsidade
Antes descrença que cartilha
Antes amor próprio que traição
Antes pedir que roubar
Antes escolher que desentender-se
Antes diálogo que disputa
Antes comer pão a passar fome
Antes ser pobre que vigarista
Antes melancia que cara feia
Antes a verdade que a ilusão

José Gomes Ferreira

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publicado às 15:39

Amor Instagramável

por José, em 25.06.23

Sonhei com um grande amor
E com a vida em directo
Estava sem qualquer pudor
Em mostrar-me dos pés até ao tecto

Sonhei com o seu corpo belo
E as imagens nas redes sociais
Expunha mais que as formas e o pêlo
Aceitava a revolução dos animais

Sonhei comigo completo
Todo repimpado e cativante
Alterei a representação do esqueleto
Acima de tudo qeria estar deslumbrante

Sonhei com um amor de verdade
Capaz de gerar confiança na relação
O problema é a difícil sanidade
De quem busca apenas atenção

Sonhei com um amor leve
Sem indicação do link completo na bio
Contam que esse amor já alguém teve
E que o risco é que possa ser vazio

José Gomes Ferreira

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publicado às 04:14

Persistência

por José, em 24.06.23

Persisto e resisto para atingir os meus objectivos
Tenho dificuldade em me manter entre hemisférios
Geralmente os mais próximos são os mais desconfiados
Procuro levar uma vida digna e de multiplicação
Será insuficiente para quem entende o trabalho como um resultado braçal
Sigo em frente até apaziguar a localização
Também eu me dedico ao trabalho braçal
Ajeito as dependências abandonadas nas últimas décadas
Livro-me da erva do fortuna e dos vasos vazios e partidos
Desdobro-me entre leituras e o amanho da terra
Finjo que as plantas vão ter água suficiente
E que eu serei lançado em novos desafios
Custa-me o desassossego de quem condena
É pior que a espera por expectativas e resultados

José Gomes Ferreira

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publicado às 22:49

Solstício

por José, em 24.06.23

O Solstício está no máximo
Até as moscas o sabem
Cercam-nos em ataques ferozes
Incomodam até a carne a grelhar
Os pássaros cantam de alegria
Com a floração de plantas e árvores abona a comida
Os cachos dilatam nas amplitudes
Brevemente poderemos ver pintor escondido nas videiras
As pessoas habituam-se a estas andanças
Protegem-se da secura e do calor
O corpo entrega-se sonâmbulo ao descanso

José Gomes Ferreira

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publicado às 13:28

Laços de sangue

por José, em 22.06.23

Deveríamos olhar bem para os laços de sangue
Tudo corre bem caso não existam heranças
Meio mundo diz não ser materialista
Só que na hora de herdar bens materiais baba-se
Chega a exigir metade da herança quando lhe cabe 1/3
Os bens herdados são por vezes veneno
Dividem famílias e destinos
É certo que as pessoas são boas quando prestáveis
O problema é quando optam por parar de fazer favores
Tem quem interprete ajuda como obrigação
Mesmo sem se questionar sobre o proveito do outro e a vinculação às opções
As famílias são tanto pólo de consenso quanto de conflito

José Gomes Ferreira

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publicado às 22:39

Utopia

por José, em 22.06.23

A felicidade é o encanto que chega nos meus olhos
Num sonho de te ter presente e sorrir
Mesmo que te desconheça ou cumprimente
A alegria é o instante em que me reconheces
Não sei quem és, mas fazes-me falta
És a utopia da definição e da cumplicidade
A certeza no peito firme
O caminho largo da vida onde aparecem transeuntes
O lugar de cruzamento sem que se estabeleça laços

José Gomes Ferreira

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publicado às 02:52

Sardinhada

por José, em 21.06.23

Soltam sorrisos e palavras
A boca vai cheia
É de pão de milho e sardinha
Nem a chuva pára a festa
O povo quando quer une-se
Unta as mãos de cheiros
E os lábios de sabores a mar
Junta vinho e reencontros
São deliciosas as festividades da época
No arraial de ar cotejado
Salta-se a fogueira
Com sonhos e rosmaninho a arder

José Gomes Ferreira

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publicado às 20:16

Aliança

por José, em 20.06.23

O sangue jorra de antemão
Com a paixão levada ao extremo
Segurando uma bandeira na mão
A felicidade é um desejo supremo

Não se encerram todas as batalhas
No esforço repetido no quotidiano
No fim do dia sobram apenas tralhas
O acumulo aumenta de ano para ano

Toda sorte precisa de ligações
E de se fortalecer na confiança
O amor não coincide com relações
Mesmo que no dedo se ostente uma aliança

José Gomes Ferreira

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publicado às 22:39

Qual o teu currículo?

por José, em 20.06.23

Cada vez menos se busca amor
Procuramos um currículo compatível
Um gosto musical ou de lazer similar
Convergência política que não gere atrito
Gostos simples de vinho, café e viagens
Gosto por carne, peixe ou vegetais
Sem esquecer diálogo entre profissões
A sedução aproxima e gera paixão
O sentimento multiplica o afecto
Mas continuamos a dar importância aos dados pessoais
Nada disso é novo e surpreendente
Só que agora são os amantes que tratam do casamento arranjado
O amor romântico não é totalmente livre
E também tem preço e rituais

José Gomes Ferreira

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publicado às 18:40

Memórias de Junho

por José, em 19.06.23

Junho sempre foi o mês sem fronteiras
A porta aberta ao Verão
O fim das aulas e das pausas
As minhas férias sempre foram de trabalho
O meu veraneio era na mata
E depois no quintal a rachar lenha
Sem esquecer as madrugadas de orvalho
Fui muitas vezes arrancar batatas ainda escuro
Ajudei a regar milho ainda sem o Sol forte
O regresso a casa acontecia cedo
A determinado momento deixei de dormir a sesta
Íamos visitar a grande cidade em plena hora do calor
Foram muitas as boleias só para não ficar pregado na terra
O meu mundo era pequenino
Não o queria deixar definhar no comodismo
Éramos felizes no sentido da descoberta
A terapia era beber Ginger Ale nas localidades ao redor
E não deixar para trás as coordenadas que escapavam aos ponteiros do relógio

José Gomes Ferreira

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publicado às 22:34

Abano

por José, em 18.06.23

Abano com um pano as estrelas
O tecido é de cor branca e neblina
Abano também o corpo trémulo
E o medo da escolha na incerteza
Pergunto qual será o amor que teremos
E como chegará a noite aos racionais
Tem tanto de nós que se questiona
A beleza do universo não traz respostas
Porém é puro o charme do contacto
Adormeço repetidamente com as imagens da diáspora
Quero ver as vozes que acalmam o abraço
E escolher as mudanças que confortem as peregrinações

José Gomes Ferreira

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publicado às 22:31

Fricção de personagens

por José, em 18.06.23

Não forço a subida ao palco
Gosto de ter na mão os aplausos
Deixo o palco ao brilho da representação
E à glória de quem tem esse dom
As palavras são a chama das vivências
E o fascínio pela observação suave
A representação tem um brilho especial
O actor coloca-se no lugar do outro para ser outro
Despe a pele para possuir outra alma
Nada mais nobre na arte que a fricção de personagens

José Gomes Ferreira

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publicado às 16:02

Verão

por José, em 18.06.23

O calor abrasador
A merenda das casas
E os putos no recreio
As avós em conversa
Os olhos a tosquenejar
As palavras curtas
As ruas estivais vazias
A emoção do regresso dos emigrantes
O abraço estendido
A inveja pelos ornamentos
E o carregar no sotaque
As saudades do tempo ido
As matas intactas
Ainda sem vermelho fogo
E os soldados em combate

José Gomes Ferreira

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publicado às 09:55

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