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Efemérides não são laços

por José, em 31.05.23

As efemérides valem o que valem
A proximidade nem sempre equivale a afectos
Tantas vezes expõe excessos de confiança
E oscila entre a distração e as oportunidades
A escolha pensada certa perante o aparente sonambulismo
Não guardo rancores ou obsolescências
Nem corro atrás da herança material
Só que isso não quer dizer que abdico do meu sono
E do ensaio legítimo da paz e propriedade
Podem contar-se muitas histórias
O meu lugar de fala é o meu lugar de vivência dos actos

José Gomes Ferreira

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publicado às 17:00

Crónica da adolescência

por José, em 31.05.23

A utopia ainda não chegou às províncias
É contada por emigrantes e caixeiros viajantes
A televisão ainda não constrói imaginários
Reproduz histórias sem fugir da obediência
Vivemos ainda os sonhos de juventude
Num mundo circunscrito ao redor
A alegria é ainda o melhor argumento para a união
A amizade é reforçada nos jogos à bola e no jogo do garrafão
Os jogos do lencinho e da macaca não excluem ninguém
Temos também as nossas cumplicidades silenciosas
Chegamos a fumar silenciosamente no meio da vinha
Até que um de nós seja descoberto em casa pelo cheiro
No meio da Primavera temos predileção pelas cerejeiras
De camisola enrolada na barriga sumimos rapidamente
A solenidade repete-se no regresso a casa
Sempre a horas e sem esquecer de ir à fonte ou buscar lenha
Temos um momento de liberdade quando apanhamos boleia
Repetidamente vamos a Viseu como quem descobre a outra face do mundo
A felicidade é algo tão próximo e tão vivido
Mesmo que no fim de semana se experimente a vida dura do campo

José Gomes Ferreira

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publicado às 12:34

Hesitações

por José, em 30.05.23

Não está fácil tomar algumas decisões sobre aparências
Hesito entre uma autobiografia cosmética
Tão cheirosa quanto a gentileza
E tão astuta quanto o charme dos galados
E uma autobiografia barriga de cerveja
De palito na mão e risada de mesa a mesa

José Gomes Ferreira

 

* galado é sobretudo uma expressão de algumas cidades do Nordeste brasileiro, aportuguesando significa bem arranjado para se ir encontrar com mulheres. 

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publicado às 22:58

Leitura

por José, em 30.05.23

Aprendi primeiro a ler o céu e as montanhas
E a razão dos lameiros
Aprendi primeiro a ler os rostos escondidos nos lenços pretos
E o suor das mãos repletas de ternura
Aprendi primeiro a ler as pedras das ruas
E o escorrega nas pedreiras
O abrigo de telhado luzidio chamado lar
Depois conheci as letras e articulei
Esperei pelos jornais atrasados e não parei de ler
Depois comprei livros e frequentei a biblioteca

José Gomes Ferreira

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publicado às 16:49

Princípio da utopia

por José, em 30.05.23

Sou a noite e o tempo
O gosto com quem me divido
A mansão perpétua
A união perpendicular das coisas
O olhar curioso sobre o horizonte
A paixão por sempre conhecer
Sou nuvem mensageira
E marca que leva ao coração
Libelinha em movimento
Silêncio que escolhe as palavras
Sou aço inquebrantável
E carinho sobre as fortificações
Amor não revelado
Gosto sentido da história
Aroma suave a madrugada
Sou amarra envolvente
Cabelo solto sobre os seios
Muro transposto sem dificuldade
Mistura de algodão e piteira
Brisa que amolece
Sonho que activa e faz sorrir
Sou a utopia perfeita
A escolha dos lençóis
A observação dos pássaros
O apito do comboio sob a natureza
A liberdade de amar
O esquecimento na alma antiga

José Gomes Ferreira

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publicado às 10:30

Prova

por José, em 30.05.23

A minha ambição é ir bombeando felicidade no coração
E corrigir nas palavras as diferenças do clima e das tradições
Isso é conseguido através dos laços que repercutem
E das pequenas vitórias do quotidiano
Não me refugio nas rezas ou no álcool
A única terapia é a luz do Sol
E o sopro da brisa no balanço do mar
Com o tempero do amor e da amizade
De nada adianta competir
Não tem nada que pague a paz e satisfação
Quem quiser correr na maratona do orgulho inscreva-se na prova

José Gomes Ferreira

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publicado às 02:57

Santo dos emigrantes

por José, em 29.05.23

Santo António dos instantes
E devotos da tua figura
Protege também os emigrantes
Providencia sempre café e rapadura

José Gomes Ferreira

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publicado às 13:28

Santo casamenteiro

por José, em 29.05.23

Está a chegar o Santo António
O padroeiro de Lisboa
Com ele acaba o pandemónio
E o namoro à toa

José Gomes Ferreira

#quadrasdesantoantonio

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publicado às 11:51

Biografia escolhida

por José, em 29.05.23

Levo uma vida simples
Quase a abandonar a competição
A deixar o amor à memória
E a invadir o eremitismo
Não preencho a felicidade com quezílias
Nem com os quadriláteros da matéria
Ou o prazer sincrético do dogmatismo
Busco apenas os elementos mínimos
Com o máximo de atenção aos factos
E falta de admiração pelos objectos
Não é por isso que perco a voz perante o descalabro
Face à viagem vertiginosa do mundo que ignora a tragédia
Também não perco a mão estendida e o coração a bater
Recebo e retribuo afecto na estrutura e nas circunstâncias

José Gomes Ferreira

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publicado às 10:37

A poesia é do povo

por José, em 28.05.23

Serei sempre um aprendiz de poeta
Fascina-me a voluptuosidade da poesia genuína
Da voz popular que deixa os actos em palavras
Com a musicalidade de quem tem fé e escreve para reunir o mundo
E depois canta para celebrar reencontros
Não gosto da poesia de atacado
Feita de redes de coisas e botecos de elite
É a voz do povo que venero e escuto
E perante essa serei sempre um humilde aprendiz e leitor

José Gomes Ferreira

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publicado às 21:14

Simulação

por José, em 28.05.23

Da tua boca doce
Os teus beijos amargos
Como se a vida fosse
Uma disputa de cargos

Do teu corpo de mel
O teu desejo de fantasia
Lembra folha de papel
E nela escrita a palavra alegria

Do teu amor furtivo
A tua promessa de relação
Na cerveja servida no postigo
És a tua melhor simulação

José Gomes Ferreira

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publicado às 19:09

Silhuetas

por José, em 28.05.23

Quando eu fico sem jeito
E a voz se embarga ao ouvido
As palavras parece que não saem
Até o bom dia custa a pronunciar
Quando eu sigo o mistério
E a vida ainda pensa o que me vai dar
Tem sempre um alento
Uma voz que nos chama
Um amor que espera no cais
Quando acredito não hesito
Cumpro mais que as obrigações
Ainda que chore na surpresa
Sigo o encanto e a sedução
Como romaria sem deuses
Aceno com lenços brancos e de todas as cores
Na protecção da paz e da aceitação
Quando eu fico feliz é porque a amizade se fortalece
Os lugares são preenchidos com a minha presença
Não apenas com as conversas oblíquas da saudade
E com a tinta que mancha as sombras
Para deixar no silêncio silhuetas da minha passagem

José Gomes Ferreira

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publicado às 14:25

Sem amarras

por José, em 28.05.23

Não corro atrás do padrão
E das amarras da penitência
Também não escondo nada
Se tem outras formas de ser livre
Aproveito todas elas
Deixo o vento soprar
Como quem acaricia o rosto
Deixo o Sol chegar
E o coração bater
O brilho é maior na paixão
Liberdade não é apenas sangue
Nem jangada em busca de rumo
É também o brilho das palavras
O aroma sem sentinela
Os beijos trocados na rebeldia
O destino que se constrói no impulso
O silêncio que junta almas aladas

José Gomes Ferreira

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publicado às 11:51

Causas que nos mobilizam

por José, em 27.05.23

Alimentamos o medo e os animais
São as causas que mais nos mobilizam
Por vezes já nem cuidamos do corpo
Tanto por ausência de meios como por opção
Através do medo aderimos às armas e treino de protecção pessoal
Por via do medo construímos fortificações
Casas contornadas de cabos eléctricos e vigilância
O medo leva-nos também a vestir bem
E a viajar em carros à prova de bala
Também pelo medo aperaltamos o estigma e o ódio
A causa animal satisfaz o nosso desejo de compaixão
Transferimos a fraternidade para o cuidar de alguns animais
Criamos agregados colectivos com as mesmas causas
Gostamos de espezinhar os seres humanos face à bondade animal
Juntamos a convicção de a causa animal ser uma causa de Deus
O medo da solidão encontra serventia na defesa animal

José Gomes Ferreira

 

* Pode parecer que sou contrário aos movimentos de defesa animal, mas tal não é verdade. O trabalho da maioria dos movimentos é notável, assim fossemos na reacção humanista.

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publicado às 19:17

Bicicleta

por José, em 27.05.23

Agarrou na peça
Andou de arco ao meio
Soltou as pernas
E prosseguiu o exercício

Mostrou-se no terreiro
Pressionou os pedais
Andou às voltas sem medo
Pedalou até doerem os joelhos

Deu uma guinada no volante
Imaginou a estrada plana
Apanhou uma ribanceira
E o trânsito a condicionar

José Gomes Ferreira

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publicado às 15:25

Guia

por José, em 27.05.23

Os tempos eram de acreditar e não ter medo
Não havia repelente nas minhas certezas
Percorreria todos os cantos do mundo
Mesmo sem saber o significado de amar
Iria ver-te sem que nada mais fosse prioridade
Não saberia escolher a música para uma serenata
Nem teria o poema pronto para declamar
Mas esses nunca seriam impedimentos
Quando se ama a voz do coração é a linguagem universal
E todo o encontro é ritual de encanto
Hoje chego até a parar de reflectir
Não me condeno pelo que deu certo ou errado
Parei de dar atenção ao que chega para o futuro
Perdoa-me o amor que não consigo esquecer
É uma loucura querer-te se não for esse o momento
Se não se sentir o sentimento que expande o sorriso
Agora o vento sopra para alinhar a voz
Outrora foi incapaz de indicar o caminho mais certeiro

José Gomes Ferreira

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publicado às 00:44

O que dizem do sertão

por José, em 26.05.23

Dizem que o sertão
É território do cangaço
É tanta a sua imensidão
Não dá para guardar no regaço

Dizem que é pobre
A terra que foi dos coronéis
O sertanejo tem coração nobre
Ao nos receber inverte os papéis

Dizem que o problema é a seca
Para continuarem a dominar
A história oral é uma biblioteca
Preenche as tradições do interior ao mar

Dizem que nem sempre sopra uma brisa
A felicidade chega quando os açudes sangram
O nordestino está sempre presente quando se precisa
E quando estão todos juntos arrasam

José Gomes Ferreira

 

* Visitas ao sertão, em trabalho, mas sempre de grande aprendizagem e com novas amizades. 

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publicado às 22:22

Dança dos urubus

por José, em 26.05.23

A noite ainda não se escondeu no horizonte
Demoram a surgir algumas madeixas avermelhadas
O céu está ainda a mentir como o amor no lusco-fusco
Poderia ser o silêncio quase absoluto
Apenas pavimentado com o carro em circulação
E com os faróis a darem brilho aos sinais de trânsito
Porém a estrada vê-se metro a metro ocupada de urubus
Só se afastam quando o choque é iminente
Aguardam que se desfaça no asfalto qualquer animal rastejante
O atropelamento de alguns mamíferos é um manjar
Estes necrófagos de cabeça vermelha limpam tudo
Lembram políticos no exagero das hormonas espectrais
A diferença é que estas aves prestam importantes serviços ambientais

José Gomes Ferreira

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publicado às 21:30

Disse que disse

por José, em 26.05.23

O disse que disse é terrível
É amigo do que diz que ouviu
Primo daquele que diz que lhe contaram
Vizinho de quem pede segredo a toda a gente
O disse que disse é pintor e artista
Pinta frases não ditas
Escreve palavras sem letras
O disse que disse é a perdição de quem nunca viveu
O dogma de quem acredita em tudo
A certeza de quem se acha melhor que todos
O disse que disse é pior do que aquele que não escutou nada
Acrescenta pontos a contos
Estraga vidas e ataca ferozmente

José Gomes Ferreira

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publicado às 00:15

Feliz Dia do Abraço

por José, em 22.05.23

Cara a cara traçamos o destino
Sentimos o abraço que nos liga
E deposita as energias siderais
Não precisamos de apenas um dia
Nem usamos o redobrar dos sinos
Mas os instantes são luz e laços
É como renascer e rir de felicidade
Podemos não ter muito para oferecer
Nem necessidade de compaixão
Só que a magia não acontece por matemática
Usa a interacção como unidade criadora
Tudo roda como nos filmes e nos romances
Alcança o paraíso e a escolha dos acontecimentos
Somos o que construímos e as relações que nos fortalecem
No peito que nos liga e na voz que nos melhora

José Gomes Ferreira

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publicado às 12:47

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